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RECURSOS ESTILÍSTICOS
Guilherme Ribeiro

INTRODUÇÃO
"Só as
obras bem escritas hão-de passar à posteridade". Essas
palavras foram escritas por um naturalista, o Conde de Buffon, ao tomar
posse na Academia Francesa, em 1753. Mais conhecido por uma frase que
se tornou famosa (le style c'est l'homme même) do que talvez
pelos 36 volumes da sua História Natural, o dito buffoniano,
pesando embora as interpretações divergentes que tem suscitado,
continua na ordem do dia.
Muitas foram e
serão as definições de estilo. Algumas marcadas
por um certo radicalismo: "ter estilo é não ter estilo".
Mas, não é nosso propósito percorrer o universo
de teorias que, ao longo das épocas, se foram formando em torno
deste assunto. Aqui, tentaremos apenas fazer um levantamento dos principais
recursos de que os prosadores, oradores e poetas se servem para tornarem
mais sugestivas, expressivas e duradouras a suas ideias, os seus pensamentos,
as suas mensagens... ou, porque não dizê-lo, a sua Arte.
E, neste sentido, o estilo é o que os particuliza e os eleva
à condição de verdadeiros artistas.
A propósito,
deixemos aqui as palavras de Aquilino Ribeiro, para que o leitor possa
reflectir sobre o valor do estilo e, ao mesmo tempo, perspectivar uma
definição possível:
«Em
literatura o estilo é como o álcool para os corpos embalsamados:
conserva-a. Toda a literatura que resiste à corrosão
do tempo deve-o ao estilo. Homero, Cícero, Shakespeare, Camões,
Voltaire, Tolstoi foram grandes estilistas. Quer isto dizer que o
estilo seja uma arte? De modo algum. Mas sem estilo nenhuma obra se
salva.
Acresce que
a nossa língua está tão pouco clarificada que
apenas pensa com precisão e justeza quem escreve correctamente.
Julgar que em nome duma postiça originalidade ou evidenciação
do humano haja de se abolir a técnica é pueril. E fazer
tábua rasa da experiência adquirida no domínio
da expressão não pode deixar de representar um inútil,
inglório e malogrado intento. A palavra é como o mármore
na estátua; dar a essa matéria semblante de vida, curvas
voluptuosas, sombras quentes, frémito, solidez, eis o difícil
objectivo que não se alcança de golpe. Com verbo desordenado,
segundo a flux apocalíptica da imaginação, só
poderá obter-se uma turva e destrambelhada arte.»
Por outro lado,
queremos que tomem consciência sobre o peso e utilidade da Retórica,
termo frequentemente interpretado em sentido pejorativo, tido como sinónimo
de verborreia.
O tratado antigo
mais conhecido é a Retórica de Aristóteles.
A importância da comunicação oral nessa época
era muito grande pois os assuntos públicos eram tratados nos
foros públicos. Mesmo nos nossos dias, os que têm a seu
cargo as deliberações dos países e os diversos
partidos políticos necessitam de estruturar convenientemente
os seus discursos para que as suas mensagens sejam acolhidas pelos cidadãos.
Significa isto
que os artifícios e as técnicas discursivas não
são exclusivas do texto literário, seja prosa ou poesia.
Eles são indispensáveis na própria comunicação,
pois é necessário cativar e persuadir para mover à
acção. Veja-se, por exemplo, a realização
dos anúncios publicitários, sejam os de teor didáctico-pedagógico,
sejam os de natureza puramente comercial.
Após estas
ligeiras considerações, resta-nos somente precisar as
coordenadas em que assentamos para produzir este modesto, mas sério,
trabalho.
É comum
distribuirem-se as figuras de estilo em três grandes categorias:
a) Figuras
de Sintaxe ou de Construção (Elipse,
Zeugma, Pleonasmo, Anáfora, Anástrofe,
Hipérbato, Anacoluto, Assíndeto,
Silepse);
b) Figuras
de Pensamento Interrogação (Pergunta de
Retórica), Exclamação, Hipérbole,
Apóstrofe, Prosopopeia (Personificação
ou Animismo), Perífrase, Antítese,
Oxímoro, Paradoxo, Gradação);
c) Tropos
(Comparação, Metáfora, Imagem,
Alegoria, Ironia, Eufemismo, Disfemismo,
Sinédoque, Metonímia).
Mas esta divisão
encontra-se sujeita a variaçõs, de forma a estabelerem-se
nexos semânticos e estruturais entre as várias figuras.
Henri Suhamy, por exemplo, agrupa-as em cinco rubricas distintas:
I. Os Tropos:
(Catacrese e Glossemas; Imagem, comparação
e metáfora; Metonímia e Sinédoque;
Perífrase; Os Tropos de Funções:
Enálage, Hipálage, Implicação,
Hendiadyn, Litote)
II. As Figuras
de Repetição e de Amplificação:
Repetição de Palavras: Epizeuxe, Anáfora,
Epífora, Anadiplose, Simploce, Antanáclase,
Epanalepse, Epanadiplose; Repetição de
Sonoridades: Rima, Assonância, Aliteração,
Apofonia, Paranomásia, Eufuismo, Poliptoto;
Redundâncias: Pleonasmo, Batologia, Tautologia,
Expleção; Paralelismo e Amplificação:
Paradiástole, Hipozeuxe, Paráfrase);
III. As Figuras
de Construção: Ritmo; Cláusula;
Quiasmo; Antítese; Oxímoro; Paralelismo;
Dissimetria; Inversão; Hipérbato;
Anástrofe; Histerologia)
IV. As Figuras
de Realce ("de mise en valeur"): Hipotipose, conglobação,
Expolição, Onomatopeia, Harmonismo,
Exclamação; Interrogação;
Apóstrofe; Mitologismo; Antropomorfismo;
Prosopopeia; Hipérbole; Litote; Tapinose;
Eufemismo;
V. Elipses:
Elipse; Abreviação; Parataxe; Braquilogia;
Anacoluto; Zeugma);
VI. Figuras
de Pensamento: Ironia; Asteismo; Autocategorema;
Epítrope; Paradoxo; Tácticas de Argumentação:
Precaução, Rejeição, Antecipação,
correcção, Retroacção, Antorismo,
Antiparástase, Apodioxe, Preterição,
Associação, Comunicação)
Nós, sem
pretendermos pôr em causa os princípios de tal divisão,
optámos por constituir núcleos relacionais em torno dos
quais agrupámos os recusrsos estilísticos. Ou seja, há
figuras que resultam de um relação analógica, como
a Comparação e a Metáfora; outras que assentam
em relações de contiguidade, como a Metonímia e
a Sinédoque; e por aí adiante.
Este procedimento
afigura-se-nos mais funcional e rentável, em termos de consulta
e de memorização, pois permite compreender melhor o fundamento
de cada recurso e, consequentemente, favorece a determinação
quer do que de comum existe entre uma série de figuras quer dos
traços que as distinguem entre si.
I. FIGURAS COM BASE NA ANALOGIA
1. COMPARAÇÃO
A comparação,
como o próprio nome indica, consiste na associação
entre dois termos diferentes, mas entre os quais há algo que
permite aproximá-los.
Exemplos:
"Dentro
da casa o mar ressoa como no interior de um búzio."
(Sophia M. B. Andresen);
"O
silêncio pesava como chumbo."
"As
árvores pareciam velas desfraldadas ao vento."
"Os
olhos de ambos reluziam como pedras preciosas."
"...
de face mais escura que a noite e coração mais
escuro que a face"
"A
rua [...] parece um formigueiro agitado" (Érico Veríssimo)
Pode, pois, concluir-se:
__ que as metáforas
sublinham as similitudes entre as coisas, mas não alteram o sentido
das palavras;
__ que existe na
associação entre as duas realidades comparadas (termo
comparante e termo comparado) uma partícula, ou expressão
(como, parecer, ser semelhante a, etc.), que marca explicitamente
essa mesma associação;
__ e que a riqueza
da comparação deriva da sensibilidade e experiência
do sujeito para construir associações lógicas,
originais e sugestivas.

2. METÁFORA
Na metáfora
está sempre implícita uma comparação, ou
seja, como que corresponde a uma associação comparativa
entre duas realidades, entre duas ideias, mas coladas uma à outra
sem quaisquer elementos que explicitem essa associação.
Porém, apesar
de a metáfora se fundar numa associação comparativa,
não podemos dizer que o seu valor e expressividade são
semelhantes aos atingidos pela comparação.
A METÁFORA
não se limita a procurar a concisão, ela transfigura igualmente
o sentido das palavras, ao mesmo tempo que expande a possibilidade de
associações possíveis entre signos diferentes.
Isto significa que entre o sentido base e o sentido acrescentado existe
uma relação de semelhança, de intersecção
de tal modo cerrada que o significado acrescentado passa necessariamente
por uma abrangência associativa muito mais extensa e rica que
aquela que acontece na comparação.
A METÁFORA,
como precisa a sua etimologia, além de procurar a concisão,
transfigura o sentido das palavras, dando a ideia de um transporte e
de uma mutação. A escrita metafórica surge como
um procedimento de codificação, exigindo, da parte do
leitor, uma espécie de tradução, tentando decifrar
o referente que se encontra detrás do signo.
METÁFORA
PURA: aquela em que apenas existe o termo metafórico, sem
a presença do termo real (subsiste o plano do evocado e desaparece
o plano do real), cabendo ao leitor tentar descodificar as possibiliades
possíveis, por meio de associações que o mesmo
terá de realizar:
"Eu
só queria a coragem
De poder adormecer os meus punhais no coração."
(José Gomes Ferreira) => Associação entre punhais
e palavras, farpas, vinganças, etc.
"Sua
lua de pergaminho
Preciosa tocando vem." (F. García Lorca) => Associação
entre a Lua e a pandeireta.
"Vomito
horas de tédio
De cansaço...
Morro os sóis que sempre nascem" (Cari)
"
É de oiro o silêncio... A tarde é de
cristal..."
"Trave
da tua casa, lume da tua lareira." José Saramago [Referido-se
à avó]
METÁFORA
IMPURA (ou SIMPLES): aquela em que o elemento metafórico e o
elemento real estão presentes, permitindo-nos estabelecer a associação
entre os dois planos (evocado e real):
"Fios
de sol escorriam de uma azinheira, perto da estrada" (Vergílio
Ferreira)
"Amor
é fogo que arde sem se ver," (Camões)
"Nossas
vidas são os rios que vão dar ao mar."
"Que
é Poesia?
uma ilha
cercada
de palavras
por todos
os lados." (Cassiano Ricardo)
"Os
suspiros escapam-se da sua boca de morango" (Rubén Darío)
"A
lua nova é uma vozinha da tarde..." (Jorge Luís
Borges)
"E
lágrimas sonoras, dos sinos velhos..." (António
Machado)
A metáfora
só se pode descrever metaforicamente, não tendo, por isso,
uma definição positiva. A METÁFORA, recriando a
linguagem, modifica o facto descrito. Por outro lado, é necessário
estar-se consciente de que as metáforas nascem, vivem e morrem,
chegando determinadas metáforas a constituir simples expressões
directas da língua, enriquecendo-a, mas deixando de ser metáforas
(vulgarmente denominadas de metáforas mortas).

2.1. CATACRESE
Etimologicamente,
CATACRESE (do grego catáchresis), significa erro.
Em sentido restrito,
pode designar um erro involuntário, seja de ordem fónica
seja de ordem ortográfica, que frequentemente acontece com os
parónimos. Ás vezes, os desvios provêm de associações
aberrantes.
A catacrese consiste
na mudança da acepção de um nome, fazendo este
representar, com base numa pura analogia, um objecto, ou uma parte do
objecto, para os quais não existem nomes de referência
particulares.
Exemplos de catacrese:
__"mão
de pilão";
__"perna
de mesa";
__"ala
de edifício";
__"cabeça
da mesa";
__"costas
da cadeira"
Ao serviço
de propósitos especiais, como nas expressões que não
possuem nome ou adjectivo próprio, a CATACRESE aproxima-se da
METÁFORA, ou chega mesmo a confundir-se com esta:
__"E
o sol estende, pelas frontarias
__
Seus raios de laranja destilada" (C. Verde)
__"Mas
eu aportara à cidade de automóvel..." F. Namora)
__"Lágrimas
eloquentes";
__"romance
água com açúcar"

2.2. IMAGEM
IMAGEM.
__ Em sentido lato, a imagem engloba figuras como a metáfora,
o símbolo, a alegoria, etc., figuras criadas por meio de uma
comparação, de uma relação analógica.
Em sentido restrito,
esta figura designa uma comparação em que todos os termos
(comparados e comparantes) se encontram expressos __ pelo que, neste
caso, o termo mais apropriado seria SÍMILE.
A imagem é,
pela sobreposição e/ou acumulação de figuras,
mais ampla e rica de sugestões que a comparação
e a metáfora. A reunião destas duas (da metáfora
com a comparação) acabam por converter as ideias em representações
mais sensíveis, animadas e coloridas:
__
"O Mondego, como uma cobra na areia, espreguiça a
sua trança de águas mortas" (Fialho de Almeida)
__
"Para os vales, poderosamente cavados, desciam bandos de arvoredos,
tão copados e redondos, de um verde tão moço,
que eram como um musgo macio onde apetecia cair a rolar." (Eça
de Queirós)
__
"Os bons amigos hão-de ser âncoras e amarras
na tempestade desta vida." (Frei Heitor Pinto)
__
"O ar mordido por pequenos dentes dum branco imaculado..."
(Bernardo Santareno)
__
"Voz rouca com claridades ardentes de Sol e negrumes
de mar sem fundo." (Bernardo Santareno)
"Horas
mortas... Curvadas aos pés do monte
A planície é um brasido.. e, torturadas,
As árvores sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a bênção duma fonte." (Florbela
Espanca)

2.3. SÍMBOLO e EMBLEMA
__ SÍMBOLO
è uma representação significativa. A balança,
por exemplo, é o símbolo da justiça, a cor
verde é símbolo de frescura, de esperança,
mas também de imaturidade, de inocência.
As metáforas
de carácter universalizante passam geralmente a ser consideradas
símbolos, como acontece, por exemplo, com «Babel»,
associada a confusão.
__ O EMBLEMA
é um signo deliberadamente escolhido, que, da parte de um indivíduo
ou de uma comunidade, pretende afirmar uma personalidade, proclamar
a identificação a um valor, como uma divisa expressa visualmente.
Os emblemas heráldicos podiam substituir os nomes. Se o leão
simboliza a coragem e a majestade, torna-se EMBLEMA para uma
nação que se reconheça nestas virtudes.
Os adereços
que as personagens transportam consigo servem muitas vezes de elementos
identificadores, isto é, constituem emblemas, como acontece,
por exemplo, com as personagens vicentinas. Porém, segundo nos
parece, o emblema conterá sempre em si também um valor
simbólico (de virtudes ou vícios)

2.4. ALEGORIA
A ALEGORIA
é uma composição simbólica, feita de vários
elementos que formam um conjunto coerente e reenviam termo a termo para
o conteúdo significado.
A ALEGORIA é
um recurso retórico-estilístico em que se fazem corresponder,
de modo minucioso e sistemático, um nível de significados
literais e um nível de significados figurados. A alegoria pode
ser considerada como uma metáfora ou como uma comparação
prolongadas, devendo o seu intérprete descobrir sob os significados
literais e patentes, que em si mesmos têm coerência, outros
significados, significados de outra ordem.
Assim, por exemplo,
"a
nau que enfrenta um mar encapelado, dirigida por um piloto firme e hábil,
responsável pelo leme, que sabe evitar os escolhos e vencer as
ondas e os ventos contrários"
é uma alegoria
multissecular da vida política do Estado, agitada e perigosa,
que exige um governante com coragem e sabedoria.
Como igualmente
alegórico é este extracto do Sermão de Santo António
aos Peixes, do Pe. António Vieira:
"O
polvo, com aquele seu capelo na cabeça, parece um monge; com aqueles
seus raios estendidos, parece uma estrela; com aquele não ter osso
nem espinha, parece a mesma brandura, a mesma mansidão."
O polvo
aparece aqui como uma notável representação alegórica
da hipocrisia com que se mascara o ser humano e, em particular, alguns
membros da igreja.
A alegoria pode
ser global, isto é, um texto literário pode conter alegorias,
mas a alegoria é particularmente utilizada em géneros
e subgéneros literários como a sátira, a fábula,
a parábola, o sermão e o apólogo (esta lista de
géneros e subgéneros demonstra bem o pendor didáctico
da alegoria).
As personagens
de alguns autos de Gil Vicente __ Auto da Alma, por exemplo __ são
personagens alegóricas, na medida em que constituem representações
do mal e do bem, do vício e da virtude.
Uma ALEGORIA na
qual se crê torna-se um MITO, dado que o MITO é uma METÁFORA
por projecção, fundada sobre uma analogia entre um fenómeno
real e um fenómeno imaginário, que é o reflexo
e que adquire importância pelo facto de que o pensamento mítico
prefere o imaginário ao real. O imaginário é sempre
mais intelegível que o real, mesmo se os filósofos nele
denunciam a irrealidade.

2.5. PARÁBOLA
A PARÁBOLA
é uma narrativa (récit) alegórica, contendo uma
lição moral ou religiosa.
Fala-se de PARÁBOLA
quando todos os elementos de uma acção, exposta ao leitor,
se referem, ao mesmo tempo, a uma outra série de objectos e processos.
A clara compreensão da acção do primeiro plano
elucida, por comparação, sobre a maneira de ser da outra.
A PARÁBOLA desenvolve-se no tempo, enquanto a ALEGORIA propriamente
dita tem um aspecto mais espacial.
"...O
semeador saiu a semear.
Parte da semente
caiu ao longo do caminho,
vieram as aves do céu
e comeram-na.
Parte caiu na pedra,
não tinha terra,
nasceu, veio o sol e secou.
Parte, enfim, caiu em terra boa
e deu bons frutos,
cem por um, outros sessenta por trinta.
Quem tiver ouvidos para ouvir, ouça."
Vejamos também
um poema, onde se fazem sentir ecos desta mesma parábola:
Pensamento
vem de fora
e
pensa que vem de dentro,
pensamento
que expectora
o
que no meu peito penso.
Pensamento
a mil por hora,
tormento
a todo momento.
Por
que é que eu penso agora
sem
o meu consentimento?
Se
tudo que comemora
tem
o seu impedimento,
se
tudo aquilo que chora
cresce
com o seu fermento;
pensamento,
dê o fora,
saia
do meu pensamento.
Pensamento,
vá embora,
desapareça
no vento.
E
não jogarei sementes
em
cima do seu cimento.
(Arnaldo Antunes)
O termo grego Parábola
significa "desvio do caminho". Mas desviar-se não equivale
necessariamente a perder-se. No fundo, recorre-se a uma forma poética
para revelar uma realidade abstracta, ou, utilizando um oxímoro,
trata-se de um "revelar por ocultação".
Na parábola
assiste-se a uma espécie de desvio em relação à
literalidade da mensagem, identicamente ao que sucede com o desvio à
norma, traço característico e essencial do facto estilístico.
Como na parábola
de Cristo, também no poema, a semente é metáfora
e imagem da palavra. Além disso, "cimento" constitui,
relativamente às palavras de Cristo, uma actualização.
Uma PARÁBOLA
pode ser inventada, mas um acontecimento histórico ou uma anedota
podem servir de parábolas, fora de tempo (après coup),
o que explica o sentido proverbial de certas expressões. As parábolas
do Evangelho adquiriram um sentido exemplar e integram-se no discurso
de igual modo.
Na mesma ordem
de ideias, uma ALEGORIA não é obrigatoriamente uma construção
imaginária ou efabulação. Uma paisagem de inverno
pode simbolizar, por exemplo, a condição humana.

2.6. SINESTESIA
Fala-se de SINESTESIA
quando detectamos uma combinação ou fusão de diversas
impressões sensoriais __ visuais, auditivas, olfactivas, gustativas
e tácteis __ entre si, e também entre as referidas sensações
e sentimentos. No fundo, trata-se de um jogo em que a transposição
dá origem a metáforas sinestésicas:
__
"O céu ia envolvendo-a até comunicar-lhe a sensação
do azul, acariciando-a como um esposo, deixando-lhe o odor
e a delícia da tarde." (Gabriel Miró)
__
"Que a alma que pode falar com os olhos também pode beijar
com a face."
__
"Sobre a terra amarga, caminhos têm o sonho." (António
Machado)
__
"Que tristeza de odor a jasmim!" (Juan R. Jiménez)
__
"Insónia roxa. A luz a virgular-se em medo.
O aroma endoideceu, upou-se em cor, quebrou
Gritam-me sons de cor e de perfumes." (M. Sá-Carneiro)
__
"E fere a vista com brancuras quentes" (Cesário
Verde)

3. PROSOPOPEIA, PERSONIFICAÇÃO ou ANIMISMO
A PROSOPOPEIA
Consiste em atribuir qualidades ou características humanas a
tudo o que não seja humano (ideias, animais, plantas, coisas,
objectos inanimados, o irracional, etc.):
"A
Ilha era deserta e o mar com medo
da própria solidão já te sonhava.
Ia em vento chamar-te para longe
E longamente, em espuma, te aguardava." (Carlos de Oliveira)
"A
chuva é obrigada a sentir que eles nem as encostas lhes
estendem." (Jorge de Sena)
"As
estrelas foram chamadas e disseram: aqui estamos." (António
Vieira)
"Entretanto,
Lisboa arrojava-se aos meus pés." (Eça de Queirós)
"Um
Sol rijo e pesadão, de todo genésico, espojava-se
sobre a terra." (Aquilino Ribeiro)
"Vêem-se
os salgueiros chorando os tradicionais amores de Pedro e Inês."
(Fialho de Almeida)
"Toda
esta noite o rouxinol chorou,
Gemeu, rezou, gritou perdidamente." (Florbela
Espanca)
"Naquela
manhã de Março, o vento norte levantou-se mal-humorado"
(António Botto)
"Plácida,
a planície adormece, lavrada ainda de restos de calor."
(Vergílio Ferreira)
"A
tarde descia, pensativa e doce, com nuvenzinhas cor-de-rosa"
(Eça de Queirós)
Há, todavia,
quem estabeleça distinção entre Prosopopeia/Personificação
e Animismo, reservando os dois primeiros para referir a atribuição
de qualidades ou comportamentos humanos a seres que o não são
e o último termo para a expressão de sinais ou comportamentos
vitais atribuídos a coisas inanimadas, como as rochas, os metais,
os objectos, etc.., mas sem os elevar à categoria de humanos:
Exemplificando:
"As
árvores torciam-se e gemiam, vergastadas pelo vento"
e
"Chegada
a noite, os cumes das montanhas e os picos das serras deixavam-se
adormecer no travesseiro celeste. (Cari)

II. COM BASE EM OUTRO TIPO DE RELAÇÕES
(Contiguidade, Parte-Todo...)
1. METONÍMIA
Enquanto a METÁFORA
se baseia numa relação de similaridade de sentidos, a
METONÍMIA assenta numa relação de contiguidade
de sentidos.
__ Na METÁFORA,
o transporte de sentido opera-se por meio de uma semelhança,
analogia. Na METONÍMIA, a transposição de sentido
realiza-se através de uma relação, existindo tantas
variedades de metonímias quantos os tipos de relação.
A METONÍMIA
(do grego metonymía = mudança de nome) consiste
em designar uma determinada realidade por meio de um termo que se refere
a uma outra realidade, mas entre as quais (entre as duas realidades)
existe uma relação.
Na metonímia,
a associação que se estabelece entre X e Y
(entre duas realidades, entre duas ideias) é o resultado de uma
relação por contiguidade e não por semelhança.
A METONÍMIA funda-se em relações de causalidade,
procedência ou sucessão entre as duas palavras que se interligam.
A METONÍMIA
implica alteração de sentido de uma palavra ou expressão
pelo acréscimo de um outro significado ao já existente,
quando entre eles (um e outro significados) existe uma relação
de contiguidade, de inclusão, de implicação, de
interdependência, de coexistência. Por exemplo, quando dizemos
"As cãs (cabelos brancos) inspiram respeito", estamos
a empregar cãs por velhice, porque os cabelos brancos
indiciam que a pessoa é idosa e, consequentemente, com muita
experiência vivida.
Exemplos de metonímia:
__
ser uma pena brilhante = ser um grande escritor
__
ter cinco bocas para alimentar = ter cinco pessoas para alimentar
__
foi movimentada a redonda na relva = foi movimentada a bola
__
ser o Cristo da turma = ser o que sofre todas as consequências
__
ter óptima cabeça = ter inteligência; ser inteligente
__
no Médio Oriente, não descansam as armas = ... não
descansam os guerreiros
Vejamos o fenómeno
metonimíco, de acordo com os diversos tipos de relação:
a) A
causa pelo efeito, ou vice-versa:
"As
barbas longas merecem ser ouvidas" => deve prestar-se atenção
aos mais idosos, porque a longa experiência enriqueceu os seus conhecimentos
e clarificou a sua razão.
b) O
autor pela sua obra:
__
"leu Cervantes" => obra de Cervantes;
__
"ler Camões" => obra de Camões;
__
"Deleitava-se lendo o seu Camilo" => lendo as obras de Cãmilo.
c) O
símbolo ou sinal pela coisa simbolizada:
"a espada, a cruz, os louros" => o exército, a religião
cristã, a glória; "o altar e o trono => a religião
e o poder monárquico
"Nas
caravelas de Portugal seguia sempre a cruz e a espada" => a religião
e a força militar
d) a divindade
em vez do domínio em que exerce as suas funções:
"amigo
de Baco" => 'amigo do vinho'
e) o
lugar de origem pelo produto, ou vice-versa:
"Bebia
Dão às refeições e acabava sempre com o café
e uma Carvalho Ribeiro Ferreira" => vinho da região do Dão
/ aguardente;
"fumar
um Havana" => fumar um charuto
"Beba
um Porto!"
f) O específico
pelo genérico e/ou o objetivo pelos meios:
"Não
sabe ganhar o pão" => não sabe arranjar maneira de sobreviver,
de arranjar algumas economias...;
"ganhar
a vida" => conseguir os meios de subsistência para viver.
g) O abstracto
pelo concreto:
"o
amor é egoísta" => o ser possuído pelo amor é
egoísta;
"Reuniu-se
em Lisboa a cultura do país." => os homens cultos
"A
juventude veste-se aqui" => os jovens
h) A
matéria pela coisa:
"o
aço" => a espada;
"os
bronzes" => os sinos.
i) O instrumento
por aquele que o maneja:
"o
baixo" => aquele que toca viola baixo;
"O
melhor pincel da sua época" => o melhor pintor da sua época;
j) O continente
pelo conteúdo, ou vice-versa:
"o
teatro aplaudiu o artista" => os espectadores aplaudiram o artista;
"beber
um copo" => beber o líquido contido num copo
k) O físico
pelo moral:
"Ele
é um grande coração." [=> homem bom, com boas
qualidades, generoso...]
"Aquele
rapaz é uma grande cabeça" [=> é muito
inteligente]
"Ele
tem maus fígados" [=> é irascível]
l) O invento
pelo inventor:
"Encontrava-se
num dédalo" => (a Dédalo se atribui a invenção
do labirinto) =>encontrava-se num labirinto
m) O edifício
ou a propriedade pela pessoa:
"Belém
mantém-se na expectativa" => O Presidente da República
Na metonímia
não acontece uma transposição das partes para o
todo, nem do todo para as partes, como na sinédoque. Ainda que
assim pareça, o que efectivamente ocorre é a denominação
de uma parte pela outra (pars pro parte).

2. SINÉDOQUE
A SINÉDOQUE
(do grego synedoché = compreensão) Consiste numa
alteração da designação da coisa que se
pretende referir, no plano do conteúdo conceptual.
A SINÉDOQUE é uma variedade de METONÍMIA,
que consiste em exprimir a parte pelo todo (pars pro toto), ora
o todo pela parte (totum pro parte): o telhado pela casa, a nação
pelo governo, etc.
Porém, não
se pense que se trata apenas de um todo quantitativo, em que cabem as
partes da ordem quantitativa. Em termos amplos, a "compreensão"
de um conceito é todo o seu conteúdo; num juízo,
o sujeito está na posição daquilo que recebe o
predicado, de modo que até uma qualidade se diz pertencer ao
sujeito como algo que é parte sua. O processo da deslocação
opera-se mediante as relações que o ouvinte percebe e
que o podem transportar na direcção do novo significado.
Neste caminhar, ora vai do todo para as partes, ora das partes para
o todo, visto que as relações ocorrem tanto de uma direcção
como de outra:
A SINÉDOQUE
funda-se em relações de contiguidade, de vizinhança,
em relações de coexistência entre o todo e as suas
partes. Vejamos como se podem apresentar esse tipo de relações:
__ A espécie
pelo género: __ Enquanto seres dentro da espécie,
a denominação vaga do indivíduo poderá indicar
a espécie:
"o
homem é mortal" (= a natureza humana é mortal),
"Por
subir os mortais da terra ao céu" (L. Camões) => 'todos
os homens' ;
"Um
Nero" => homem cruel;
__ A parte é
expressa pelo todo e o todo é expresso pela parte:
"a
vela singrou os mares" (= O navio à vela singrou os mares),
"Este
povo que é meu, por quem derramo
As lágrimas..." (L. Camões) => povo representa aqui
apenas os marinheiros de Vasco da Gama e não o povo português
"Que,
da Ocidental praia lusitana" => Portugal
"Andar
nas bocas do mundo" => de muitas pessoas, mas não de
todas as pessoas.
__ A matéria
pelo instrumento (ou pela forma), ou inversamente:
"Com
o ferro o duro Pirro se aparelha" = espada;
"Que
de Homero para eles a cítara só cobiço" => inspiração
__ O singular
pelo plural ou o plural pelo singular:
"o
português é valente" => os portugueses são
valentes
"Aqui,
o pescador vive em barracas de madeira que têm o aspecto
de povoações lacustres." (Raul Brandão) [o pescador
=> os pescadores]
A sinédoque
fomenta o vigor do estilo, por causa da concisão que lhe empresta;
produzindo a palavra muito mais do que a acepção ordinária
lhe atribui, o efeito estético decorrente torna-se apreciável.
Mas requer-se que a sinédoque seja facilmente reconhecível,
porque de contrário torna o texto enigmático, em vez de
sugestivo e vigoroso.

3. ANTONOMÁSIA
A antonomásia
consiste na substituição de um nome próprio por
uma qualidade ou um epíteto, que o identifica ou define:
"O
rio Douro ficou banido da lírica portuguesa com a sua catadura
feroz pouco própria para animar os gorgeios dos bernardins, que
são sempre lamurientos..." (A. Bessa Luís) => ao estilo
de Bernardim Ribeiro
"Mil
relógios, mil fivelas
Que aos Adónis muitas deram" => aos amantes
A antonomásia
vossiânica consiste na substituição de um apelativo
por um nome próprio (geralmente um ser excepcional da história
ou da mitologia):
"um
Catão" __ assim se referia Ramalho Ortigão a Alexandre
Herculano, para expressar que este 'era virtuoso em extremo, um austero'.

III. IDEIAS CONTRADITÓRIAS e CONTRADIÇÃO
NO INTERIOR DOS CONCEITOS
1. ANTÍTESE - OXÍMORO - PARADOXO
ANTÍTESE:
Figura de construção, mas também de pensamento.
Enquanto procedimento literário, e sobretudo poético,
a ANTÍTESE não consiste em confrontar dialecticamente
teorias opostas, mas sim apenas em jogar com os contrastes e em exprimí-los
por meio de construções compactas e bipolares.
A ANTÍTESE
poética não pretende, como a de ordem filosófica,
resolver, e muito menos elucidar, as contradições do Universo
ou do pensamento; ela pretende somente exprimir todo o 'claro-escuro'
da vida através de expressões intuitivas.
A ANTÍTESE
reside na oposição dos contrastes em estado puro e na
forma mais ou menos simétrica que os coloca em relevo. A significação
ideológica que daí se pode retirar pertence a um outro
domínio.
"Glória
do Minho, horror de Salvaterra"
"Este
baixel, nas praias derrotado,
Foi nas ondas Narciso presumido,
Esse farol, nos céus escurecido,
Foi do monte libré, gala do prado." (P. Cultista)
"Com
maior frío vós; eu com mais fogo."(Herrera.)
"o
berço de um era magnífico e de marfim entre brocados;
o berço do outro, pobre e de verga"
"No
terror e esplendor da emoção" (Eça de Queirós)
"Sentia-se
homem, pequenino ou grande, consoante a luzinha interior
que na hora o alumiava." (Aquilino Ribeiro)
__ O OXÍMORON
(ou OXÍMORO, ou ANTILOGIA): É uma forma de antítese
lúdica e paradoxal, que inculca a uma dada expressão dois
sentidos teoricamente incompatíveis.
O OXÍMORON,
assentando na ligação de duas imagens que, na realidade,
parecem excluir-se, representa uma intensificação especial
da ANTÍTESE.
A ANTÍTESE
e o OXÍMORO são duas figuras que se encontram ao serviço
da expressão de ideias contraditórias, coabitando no mesmo
espaço discursivo. Contudo, há entre uma e outra uma diferença
de intensidade, quase semelhante àquela que existe entre a COMPARAÇÃO
e a METÁFORA.
Assim, enquanto
na ANTÍTESE, se explicita numa contradição entre
dois campos perfeitamente distintos (A / B), no OXÍMORO, assiste-se
a uma espécie de sobreposição dos dois campos AB
. Tal significa que a lógica do campo A. não só
é negada pelo campo B, como também, e simultaneamente,
se pretende impor a afirmação dessa mesma negação,
instaurando uma 'realidade terceira' que funciona como termo dialéctico
da síntese e que ultrapassa o puro movimento de afirmação
e negação:
"Então,
falo melhor quando emudeço...
Que de matar-me vivo..." (Camões)
"Amor
é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente; (Camões)
"Foste
tu que partiste,
__ Meu amargo prazer, doce tormento!"
É verdade
que o OXÍMORO corresponde à expressão de ideias
ou pensamentos paradoxais, e, por isso mesmo, é ele o termo eleito
em detrimento de PARADOXO.
Embora o OXÍMORO
esteja como que colado ao PARODOXO, nós entendemos que seria
possível estabelecer, mesmo que de forma um pouco ténue,
uma linha de diferenciação entre estes dois termos.
Assim, pensamos
nós, enquanto o OXÍMORO se prende com conceitos apenas
inconciliáveis se considerados dentro de uma mesma esfera de
análise, o PARADOXO pressupõe sempre duas ideias antagónicas,
em que cada uma delas é necessária à existência
da outra, quanto mais não seja em termos conceptuais. Isto é,
dizer-se que "A paz nasce da guerra" é um
paradoxo, porque é precisamente a apreensão do conceito
contrário ao de paz que permite ter consciência desta;
e o mesmo se passa em relação aos sentimentos humanos,
em que, por exemplo, o ódio pode derivar do amor, etc., como
também ao nível das atitudes e comportamentos humanos:
"O
Sr. Pimpão, colado ao povo e sempre defensor da sua simplicidade,
apareceu sumptuosamente trajado e de olhar pousado no mais alto pedestal"
(Cari) [Atente-se no paradoxo entre a que parece defender e a atitude
que agora toma]
Se pusermos em
paralelo duas realidades cruéis, estabelecendo entre elas uma
diferença gradativa, podemos criar um oxímoro do género:
"O tristeza
do olhar de Pedro e do irmão espelhava aquele desassossego que
o vinho do pai trazia todas as noites ao lar. Mas, quando escutavam
o barulho infernal da casa do vizinho, que parecia habitada por duas
hostes inimigas, serenavam... e a confusão em que viviam convertia-se
numa leve e passageira paz..."
Significa isto
que, no OXÍMORO, se sobrevaloriza o efeito implicado numa reflexão
entre duas realidades cruéis, mas separadas por uma discrepância
ao nível da intensidade, e não propriamente o antagonismo
entre ideias opostas. Aliás, é perceptível que
«paz», aqui, não corresponde verdadeiramente
ao sentido de "paz" (ausência de conflito, convivência
harmoniosa, etc.), antes acentua o ambiente horrível que se vive
em casa do vizinho, e diante do qual o temor que se vive no outro lar
quase que é esquecido. A este propósito, é sugestivo
o dito popular ao referir que "O mal dos outros é conforto"
(porque abranda a dor do nosso próprio mal).
Em suma, enquanto
o PARADOXO expressa duas realidades opostas e inconciliáveis
simultaneamente, o OXÍMORO assenta na expressão de efeitos
contraditórios face a circunstâncias semelhantes, mas separadas
por um relativo grau de intensidade.
Convirá,
no entanto, ter sempre presente, que a coabitação de sentidos
contrários assenta numa espécie de sobreposição
de planos distintos, como físico / psicológico,
material / espiritual, mundo interior / mundo
exterior, etc.:
"Aquela triste
e leda madrugada" (Camões) ["leda" refere-se
ao aspecto físico duma natureza que acorda suave e se anuncia
luminosa e agradável, enquanto "triste" respeita a dor
psicológica que a morte de sua amada nele causara. Em suma, essa
madrugada alegre é testemunha de um acontecimento marcadamente
triste.]

2. ANTÍFRASE
A ANTÍFRASE
consiste na Expressão de uma coisa através de um termo
de significado oposto. Este procedimento é usado para incutir
ironia ou sarcasmo (ver IRONIA)
"Cujo
nome do vulgo introduzido
É Félix por antífrase infelice"
(L. Camões)

3. IRONIA
A Ironia consiste
em dar a sensação de louvar o que se pretende condenar,
em exprimir as suas intenções por ANTÍFRASES, em
dizer o inverso do que se pretende deixar entender. Com a IRONIA pretende-se
sugerir o contrário daquilo que se diz com as palavras.
A IRONIA assemelha-se
à hipocrisia., mas combatendo-a com as armas que esta mesma utiliza.
Como a ironia está
especialmente exposta ao perigo da incompreensão (à obscuritas)
é o contexto que determina o seu real sentido e, ganha particular
evidência por meio da pronuntiatio (a expressividade do
tom com que é produzida):
"Olá,
Veloso amigo, aquele outeiro
É melhor de descer que de subir" (Camões) [maneira
subtil de chamar covarde, medroso]
"Que
belo empregado tu me saíste!" [= irresponsável, incompetente...]

4. LITOTE (ou LITOTES)
LITOTE É
o nome da primeira figura da linguagem "imprópria" (figurada).
Nela dá-se a perceber alguma coisa de diverso do que a forma
linguística em si mesma significa. Com a LITOTE exprime-se uma
afirmativa pela negação do contrário.
A litote é
uma ironia da dissimulação com valor perifrástico,
que consiste em obter um grau superlativo pela negação
do contrário:
"nariz
alto no meio e não pequeno" (Bocage) => significa 'muito grande';
"Não
nos rimos pouco...!" => 'rimo-nos muito'.
"Este
vinho não é nada mau." => 'é bom'.

IV. EXAGERO e SUAVIZAÇÃO NA EXPRESSÃO
DE IDEIAS, EMOÇÕES, etc.:
1. HIPÉRBOLE (ou AUXESE)
Na linguagem corrente,
seu domínio de preferência, a HIPÉRBOLE consiste
em utilizar termos excessivos e impróprios, como "genial", "fantástico",
"sublime", "ignóbil", "execrável", etc.; comparações
irrealistas ("Forte como um touro"); abuso de superlativos.
No fundo, na linguagem
corrente ou na linguagem literária, a HIPÉRBOLE corresponde
sempre a um exagero, seja do real seja do imaginário, por excesso
ou por defeito.
Pertencente ao
audacior ornatus, a hipérbole possui efeitos poético-evocativos
e serve, na retórica, para despertar pateticamente no público
afectos partidários e, na poesia, para a criação
afectiva de imagens que ultrapassam a realidade, enfatizando deste modo
uma determinada ideia.
__ A Hipérbole
pura é um sobrepujamento gradual de sinónimos amplificantes
que acabam por ultrapassar os limites da credibilidade:
"A
grita se alevanta ao céu da gente",
"Agora
sobre as nuvens os subiam
as ondas de Neptuno furibundo,
agora a ver parece que desciam
às entranhas do profundo" (L. Camões);
"Se
aquele mar foi criado num só dia, eu era capaz de o escoar todo
numa hora... era capaz de o beber só para me ver livre dele."
(Agustina Bessa Luís)
"Vê-se
ondear um oceano de cabeças." (Rebelo da Silva)
__ Hipérbole
combinada com outros tropos:
a) Hipérbole
metafórica, quando combinada com a comparação
ou com a metáfora:
"duro
como ferro" => 'cruel';
"vontade
de ferro" => 'vontade inabalável';
"Peguei
a esbugalhar lágrimas como punhos." (Camilo Castelo
Branco)
"A
sua alma era um vulcão"
"Sem
ter respeito àquela assim estremada
Gentileza de luz que a noite escura
Tornava em claro dia, cuja alvura
Do Sol a clara luz tinha eclipsada" (Camões)
b) Hipérbole
irónica, na qual se exagera, de maneira provocante, a crítica
em relação a alguém:
"Tão
delicada e mimosa era a sua consciência, que não só
a picavam os escrúpulos próprios, senão também
os alheios" (ª Vieira)

2. EUFEMISMO
A realidade quase
nunca é aquela que sonhamos. Há muitas circunstâncias
adversas ao longo da nossa vida, esperadas ou acidentais. Tomar conhecimento
sobre determinados factos, sobretudo quando directamente relacionados
com a esfera dos nossos afectos, é extremamente doloroso e pode
perturbar enormemente a nossa sensibilidade ou até pôr
em causa a nossa saúde.
O EUFEMISMO surge
assim como forma de atenuar a verdade catastrófica, com vista
a diminuir a força do impacto que a verdade poderá causar.
Isto é, consiste em suavizar o carácter desagradável,
horrível, penoso, grosseiro ou indecoroso, de um julgamento,
de uma notícia, de um pensamento, etc. Mas também poderá
haver casos em que o Eufemismo pode conter um travo de ironia:
"Entregar
a alma ao criador." (por 'morrer')
"Nunca
usava palavras triviais; não dizia vomitar, fazia um gesto indicativo
e empregava restituir." (Eça de Queirós)
"Lhe
dá no Estígio lago eterno ninho" (Camões) [=
matou-o]
"Ele
não roubou... Digamos que fez um pequeno desvio!"
"...
Só porque lá os velhos apanham de quando em quando uma
folha de couve pelas hortas, fazem de nós uns Zés do
Telhado" (Aquilino Ribeiro) ["apanham" => furtam, pela associação
com o Zé do Telhado]

3. DISFEMISMO
O Disfemismo É
precisamente o contrário de eufemismo. Em vez de se atenuar uma
dura realidade, opta-se por torná-la real ou mesmo cruel:
"Qual
enganado, qual carapuça... levou foi um lindo par de cornos!"
[a sua mulher praticara adultério]
"Esticou
o pernil... Foi fazer tijolo... Bateu a bota..." [= morreu]
"Deixa
em paz a criatura. Está começando a esta hora a apodrecer,
não a perturbemos." (eça de Queirós)

V. TROPOS DE FUNÇÕES ou TROPOS GRAMATICAIS:
1. ENÁLAGE
A ENÁLAGE
corresponde ao emprego de palavras com categoria gramatical diferente
daquela que lhe é característica). __ A ENÁLAGE
joga com as categorias gramaticais de base: tempo, número, pessoa,
funções.
É pela ENÁLAGE
que o infinitivo introduzido pela preposição de
substitui um tempo conjugado; que uma palavra concreta substitui
uma abstracta, ou vice-versa; que se emprega um verbo intransitivo
como transitivo, ou vice-versa:
"O
que eu sonhei, morri-o" (F. Pessoa)
"Mais
vale um toma que dois te darei." (Prov.)
"Enquanto
dormias a tua solidão" (Jorge de Sena)

2. HIPÁLAGE
A Hipálage
é a figura que atribui a um ser ou coisa, designados por uma
palavra, uma qualidade ou acção que, logicamente, pertence
a outro ser ou coisa expressos ou subentendidos na frase.
"O
chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola
do quintal em frente" (Ramos Rosa)
A hipálage
consiste em atribuir a um substantivo um epíteto que apropriadamente
se devia atribuir a outro substantivo do co-texto. Trata-se de uma alteração
gramatical e simultaneamente semântica, da relação
entre um adjectivo e um substantivo: em vez de o adjectivo se encontrar
ligado ao substantivo que semanticamente o exigiria, aparece relacionado
com um outro:
"Houve
um ruído domingueiro de saias engomadas" (Eça
de Queirós) ['saias domingueiras']
"Na
rua, a estanqueira chegou-se à porta, vestida de luto, estendendo
o seu carão viúvo" (Eça Q.) ['carão
de viúva']
"fumar
um pensativo cigarro" (Eça Q.) ['fumar pensativamente
um cigarro']
"Abria
os olhos molhados de culposas lágrimas." (Camilo C.
Branco) [A culpa é relativa ao sujeito e não às lágrimas]
"E
logo a grulhada das suas vozes reanimou o canapé dormente."
(Eça de Queiró) [a dormência é a das pessoas
que estão instaladas no canapé]
"Mas
depois rebrilhava a estante amável dos Poetas." (Eça
de Queirós) [a característica amabilidade dos poetas é
deslocada para a estantes]
"O
aro de oiro dos seus óculos burocráticos" (Eça
de Queirós)
"Atacou
com um pedal solene o hino da carta." (Eça de Queirós)
"As
tias faziam meias sonolentas" (Eça de Queirós)
VI. FIGURAS RELACIONADAS COM REPETIÇÃO
A. REPETIÇÃO de PALAVRAS e de CONCEITOS
1. ANÁFORA
A Anáfora
consiste em iniciar vários versos ou frases, ou sucessivos membros
de frases por uma mesma palavra ou grupo de palavras (x... / x... /
x...). A Anáfora pratica-se tanto em prosa quanto em verso (Ver
Simploce):
"Tudo
cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba."
(A. Vieira: Sexagésima)
"Lisboa
com suas casas
de várias cores,
Lisboa com suas casas
de várias cores, " (F. Pessoa)
"Castro
na boca, Castro n' alma, Castro
em toda a parte" (A. Castro)
"Árida
palma
Tem seu licor;
Tem, como a alma
Tem seu amor;
Tem, como a hera,
Tem seu abril;
Tem, como a fera,
Tem seu covil." (João de Deus)
"Tinha
um berço pequenino
E uma criada velha com um terço...
Cresci de mais, como destino"
Cresci de mais para a o meu berço. (José Régio)
"E
negro, negro como a noite morta,
E negro, negro como negro dia,
Senti-me triste como a noite morta.
Porém, de manso, abriu-se aquela porta....
E o Sol entrou!
E
para mais, chovia..." (Pedro Homem de Melo)

2. ANADIPLOSE
A Anadiplose é
um processo de repetição e de encadeamento através
do qual se retoma o início de uma proposição precedente
(... x / x ...). A concatenação é perfeita quando
recai sobre a parte final da anterior e o início da seguinte.:
"Vou
retratar a Marília,
a Marília meus amores" (Gonzaga);
"que
era perdido de amores
por uma moça Joana:
Joana patas guardava
pela ribeira do Tejo." (Bernardim R.)
"Outra
amante não há, não há na vida" (Antero
de Quental)
"Anos,
velhice, desgraça __ e teima. Teima até ao caixão."
(Raul Brandão)

3. DIÁFORA ou ANTANÁCLASE
A Diáfora
consiste em repetir, numa mesma frase, palavras semelhantes ou homónimas,
mas marcando essa repetição por uma oposição
de sentido. Trata-se de um procedimento mais intelectual que rítmico.:
"Em
vão, os deuses vãos, surdos e imotos." (Camões,
Lus., X, 15)
"Esta
vida dura, mas que não dura."
"Os
vossos, mores cousas atentando
Novos mundos ao mundo irão mostrando" (Camões)

4. CLÍMAX ou CLÍMACE
O Clímax
corresponde geralmente a uma intensificação, ou gradação,
que se efectua em graus simétricos, iguais. E colocámo-la
aqui, porque é frequente apresentar, entre o último vocábulo
da frase ou oração anterior e o primeiro da frase ou oração
seguinte, uma repetição total ou etimológica (com
a mesma raiz) do vocábulo, mas contribuindo sempre para acentuar
o crescendo (gradação ascendente) da ideia ou do pensamento:
"__
Onde o bom exemplo calando avisa, avisando emenda e emendando afeiçoa."
"Da
perda do bem nasce o conhecimento; do conhecimento a estimação;
da estimação a dor."

5. EPANADIPLOSE (ou CICLO)
Trata-se de uma
repetição semelhante à Epanalepse, mas cujo emprego
difere quanto à estrutura, pois, este processo refere-se aos
casos em que haja duas proposições, e não apenas
uma (x... / ... x).
"O
natural é o agradável só por ser natural" (F.
Pessoa)

6. EPÂNODO
EPÂNODO consiste
na repetição, em separado, de vocábulos que anteriormente
se encontravam juntos.
"No
pregador podem-se considerar cinco circunstâncias: a pessoa, a
ciência, a matéria, o estilo, a voz. A pessoa que é,
a ciência que tem, a matéria que trata, o estilo que segue,
a voz com que fala." (A. Vieira: Sexagésima)

7. EPANALEPSE
Consiste na repetição
do/dos mesmo/s vocábulo/s em vários pontos do contexto,
próximos uns dos outros.
Pode-se jogar também
com variações de sentido, relativamente à palavra
repetida...
"Assim
como Deus não é hoje menos Omnipotente, assim a Sua palavra
não é hoje menos poderosa." (A. Vieira: Sexagésima)
"O
rio cheio de escamas brilha
Negra, cheia de luzes, brilha a cidade alheia
Brilha a cidade nos anúncios luminosos" (Sophia M. B. Andresen)
"E
o ano acaba alguma coisa acaba
acaba um homem para quem acaba uma viagem. (Ruy Belo)

8. EPÍFORA (ou EPÍSTROFE)
É uma repetição
simétrica, em relação à Anáfora.
Isto é, consiste na repetição de uma mesma palavra,
ou grupo de palavras no final dos versos, das proposições
ou frases (... x / ... x). (Ver Simploce):
"Os
animais não são criaturas? As árvores não
são criaturas? As pedras não são criaturas?"
(Vieira; Sermão da Sexagésima)
"Não
sou nada
Nunca serei nada
Não posso querer ser nada" (Álvaro de Campos)
"Como
galhos secos caíam, a um sopro mais forte caíam."
(Vergílio Ferreira)

9. EPIZEUXE ou REDUPLICAÇÃO ou PALILOGIA
É a mais
elementar das repetições estilísticas. Consiste
em repetir uma palavra sem conjunção de coordenação.
Repetição de uma mesma palavra para amplificar, exortar,
ordenar.
"Dizendo:
«fuge, fuge, Lusitano»" (Lus. II, 61)
"¿Qué
es esto? ¡Prodigio! Mis manos florecen;
rosas, rosas, rosas, a mis dedos crecen..." (Juana de Ibarbourou.)

10. SÍMPLOCE (ou COMPLEXÃO)
É o resultado
da combinação de dois processos de repetição:
da Anáfora com a Epífora, ou, o mesmo será dizer,
da repetição da mesma palavra no início e fim da
frase:
"Cavalgada
alada de mim por cima de todas as coisas,
cavalgada estalada de mim por baixo de todas as coisas,
cavalgada alada e estalada de mim por causa de todas as coisas"
(F. Pessoa)
"Mirrados,
si, mas por amor de vós mirrados; afogados, si, mas por amor
de vós afogados; comidos, si, mas por amor de vós comidos;"
(A. Vieira: Sexagésima)

11. PLEONASMO
Designa as redundâncias
mal formadas, sobretudo do ponto de vista gramatical e lexical:
"Subi
para cima"
"Desceu
para baixo"
Em sentido de plenitude
é uma figura pela qual se acrescenta à expressão
do pensamento, para reforçar a clareza ou a energia, palavras
que seriam inúteis à integridade gramatical:
"Vi
com estes olhos que a terra hão-de comer"
"Vi
claramente visto o lume vivo
Que a gente tem por santo" (Camões)
"Todos
nus e da cor da treva escura" (Camões)
"Vistos
com os olhos, palpados com as mãos, pisados com
os pés" (A. Vieira)
VI.
FIGURAS RELACIONADAS COM REPETIÇÃO

B. REPETIÇÃO DE ESTRUTURAS (Com ou sem
repetição de palavras)
:
1. PARALELISMO
Genericamente,
PARALELISMO significa toda a forma de construção que reproduz
um mesmo esquema, sobretudo se se trata de correspondências verticais
entre as frases.
"Com
estrelas na alma, com visões na mente"; "Bátegas
de brasas, turbilhões de sóis." (Junqueiro)
De igual modo seriam
frases paralelas as que seguem:
"El
cabello es oro endurecido, el labio es un rubí no poseído,
los dientes son de perla pura.";
ou estas de Vieira:
"Ondeia-lhe
os cabelos, alisa-lhe a testa, afia-lhe o nariz, abre-lhe a boca, avulta-lhe
as faces, torneia-lhe o pescoço, estende-lhe os braços,
espalma-lhe as mãos, divide-lhe os dedos, lança-lhe os vestidos."
Ou estas de Carlos
Drummond de Andrade:
"E
agora José?
a festa acabou
a luz se apagou
o povo sumiu
a noite esfriou
E agora José?
E agora Joaquim?
Está sem mulher
está sem discurso
está sem carinho..."
A construção
paralela torna-se mais intensa quando é sublinhada pela repetição
de palavras dominantes sintacticamente, como pode acontecer com a ANÁFORA
ou, sobretudo, com o
PARALELISMO ANAFÓRICO.
Este é característico, como se sabe, das Cantigas de Amigo...
e não só... e consta da repetição simultânea
de palavras ou expressões e de estruturas sintácticas:
"Ai,
flores, ai flores de verde pino,
Se sabedes novas do meu amigo?
Ai,
Deus, e u é?
Ai, flores, ai, flores, do verde ramo,
Se sabedes novas do meu amado?
Ai, Deus, e u é?
"Tempo
de solidão e de incerteza
Tempo de medo e de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação
Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo de escravidão
Tempo de coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rasto
Tempo de ameaça. (Sophia M. B. Andresen)
Tanto num como
noutro casos, é fácil verificar que, para além
da repetição de palavras e expressões, há
igualmente uma estrutura frásica que se predomina ao longo das
várias estrofes dos poemas.

2. QUIASMO
O Quiasmo é
É a figura mais conhecida das que se fundam na simetria. Trata-se
de uma expressão construída principalmente por quatro
termos, sendo os dois últimos da mesma natureza dos dois primeiros,
mas apresentando uma ordem invertida. O QUIASMO aparece quando duas
partes de frase ou frases completas, que contêm uma ANÁFORA,
não são construídas paralelamente, mas em oposição,
como imagem e reflexo. Habitualmente o QUIASMO é representado
por uma figura em cruz, ou pela sigla AB BA.
"O
castelo melhor, o melhor forte...
| o castelo |
melhor, |
o melhor |
forte |
| A |
B |
B |
A |
Na
terra as crianças cantavam, cantavam as
aves no alto.
| na terra |
as crianças |
cantavam, |
cantavam |
as aves |
no alto |
| A |
B |
C |
C |
B |
A |
"Ó
minha menina loura, / Ó minha loura menina [...]" (F. Pessoa)
| Ó minha menina |
loura, |
ó minha loura |
menina |
| A B |
C |
A C |
B |
"Crédit
Lyonnais: A banca do futuro / a vossa futura banca" (Anúncio
publicitário)
| a banca |
do futuro, |
a vossa futura |
banca |
| A |
B |
B |
A |

3. REVERSÃO
Esta figura também
aparece denominada de ANTIMETÁBOLE __ o termo metábole
significa, em princípio, alteração ou deslocamento,
o que o torna próximo de TROPO. Trata-se de uma forma primitiva
de QUIASMO, que consiste em opor os mesmo termos em ordem invertida.
Porém, a inversão provoca, não raras vezes, alteração
ao nível do sentido, fazendo lembrar a ANTANACLASE:
"O
rei dos vinhos, o vinho dos reis" (Anúncio publicitário)

VI.
FIGURAS RELACIONADAS COM REPETIÇÃO

C. REPETIÇÃO DE SONORIDADES:
1. RIMA
Repetição
de um mesmo som, total ou parcial, geralmente em final de verso. Por
vezes acontece que dentro do verso pode existir rima, pelo que a denominamos
de RIMA INTERNA. Embora característica dos textos em verso, não
significa que também não possa aparecer em textos em prosa:
Vem
cá dizer-me que sim,
Ou
vem dizer-me que não.
Porque
sempre vens assim
P'
ró pé do meu coração.

2. ASSONÂNCIA
É uma homofonia
de sons vocálicos, algumas vezes prolongando o efeito da RIMA.
Pode haver casos em que a ASSONÂNCIA preenche uma impossibilidade
de encontrar-se uma combinação de palavras que, ao mesmo
tempo que garantem a lógica e a expressividade de sentido, possibilitem
também o efeito de RIMA:
"As
mãos do mar que vêm e vão,
As mãos do mar pela areia
Onde os peixes estão.
As mãos do mar vêm e vão
Em vão.
Não chegarão
Aos peixes do chão.
"De
permeio a morte? Sim, a arrenegada,
venha rebuçada ou escancarada,
a que te ceifa inteiro ou se deita, primeiro,
de esperanças, na tua cama." (Alexandre O' Neill)
"Tem
dores e ais e as dores dos ais / e os ais das dores;"
(F. Namora)
"Água
fria fica quente, / Água quente fica fria
/ Mas eu fico frio / Sem a tua companhia" (Manuel
Bandeira)

3. ALITERAÇÃO
Enquanto a assonância
recai sobre a repetição de sons vocálicos, a Aliteração
incide sobre a repetição de sons consonânticos.
A ALITERAÇÃO tem sobretudo uma função imitativa.
Além disso, embora menos que a ASSONÂNCIA, pode substituir
o efeito da RIMA.
"O
rato roeu a rolha da garrafa do rei
da Rússia
"Antes
que o sol se levante
Vai Vilante a ver o gado
Mas não vê sol levantado
Quem vê primeiro a Vilante. (Camões)
(predominância
do som [v])
"Os
seus pés descalços
pareciam escutar o chão que pisavam"
(Sophia M. B. Andresen)
(predominância
do som [s] combinado com [ch] e [z])
"Que
o fraco rei faz fraca a forte
gente." __ (Camões) ([f] e [R]
"Na
messe, que enlourece, estremece a quermesse...
O sol, o celestial girassol, esmorece...
E as cantilenas de serenos sons amenos
Fogem fluidas, fluindo à fina flor
dos fenos... (Eugénio de Castro)
"Calos,
carros, casas, casos.
Capital
Encarcerada.
Colos, calos, cuspo, caspa." (David Mourão-Ferreira)
"Brandas,
as brisas brincam nas flâmulas, teu sorriso..."
(F. Pessoa)

4. ONOMATOPEIA
Trata-se do emprego
de palavras que sugerem sons produzidos por animais ou pessoas (ronronar
do gato, piar do pássaro, gotejar da torneira, etc), ou ruídos
produzidos por objectos (chiar do carro, etc.) ou pela natureza (sibilar
do vento, ribombar do trovão, etc.) etc.:
Troc...
troc... troc... troc...
Ligeirinhos,
ligeirinhos.
Troc...
troc... troc... troc...
Vão
cantando os tamanquinhos...
"Galgar
com tudo por cima de tudo, hup-lá
Hé-lá! Hê-hô! Ho-o-o-o-o-o!
Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z!
Ah não ser eu toda a gente e toda a parte!" (Álvaro
de Campos)

5. PARONOMÁSIA ou ANNOMINATIO (ou PARAQUESE)
Quando se usa palavras
com som parecido, seja com significado semelhante ou com significado
diverso. As semelhanças entre as palavras tanto podem resultar
do seu parentesco etimológico, como podem ser simplesmente acidentais:
"Sagres
sagrou então a Descoberta..." (Miguel Torga)
"D'
esta arte a gente força e esforça Nuno"
(L. Camões)
"Por
causa dos privados foi privado" (L. Camões)
"Em
muitas partes toma o navio porto à porta do seu dono"
(A. Vieira)
"Fundou-se
e fundou-o David na vitória da sua funda" (A.
Vieira)
"Mas
não tremas, nem temas" (A. Vieira)
"Que
a coroa de palma ali coroa" (L. Camões)
"O
Texto não quer dizer calçada, senão calcada"
(A. Vieira)

6. TROCADILHO ou JOGO DE PALAVRAS
O TROCADILHO ou
JOGO DE PALAVRAS está geralmente associado à combinação
ou agrupamento de vocábulos com som semelhante.
Em sentido restrito,
o trocadilho é entendido como o aproveitamento do sentido duplo
de uma palavra:
"Joana
flores colhia
Jano colhia cuidados." (bernardim Ribeiro)
"__
Aquela ave do Sol e Sol das aves" (Jerónimo Bahia)
"Quer
que a pinte a cores,
quer que a cante a coros...
Meti-me em debuxos
E caí em tonos.
Quem me fora Apeles!
Quem me fora Apolo!"
Nesta estrofe,
a PARANOMÁSIA cruza-se com o TROCADILHO ou JOGO DE PALAVRAS resultantes
das semelhanças tonais entre cores e coros, Apeles
e Apolo.

7. POLIPTOTO
Consiste na repetição
da mesma palavra em diferentes flexões, mas distinguindo-se da
alteração referente à criação de
palavras pelo facto de não provocar uma alteração
ao nível do seu significado nuclear, mas apenas uma alteração
da perspectiva sintáctica:
"No
mar tanta tormenta e tanto dano,
tantas vezes a morte apercebida!
Na terra tanta guerra, tanto engano
tanta necessidade avorrecida" (L. Camões)
"Um
Oriente, ao oriente, do Oriente" (F. Pessoa)
"Enquanto
vos oferece a luz, crede na luz, para que sejais filhos
da luz" (A. Vieira)

8. FIGURA ETIMOLÓGICA
Consiste na repetição
do radical de uma mesma palavra, visando produzir uma intensificação
da força semântica:
"Uma
vida que é vivida,
e outra vida que é pensada" (F. Pessoa)
"viver
uma vida divina" (A. Vieira)
"Vi
claramente visto o lume vivo" (L. Camões)

9. EUFONIA
Efeito rítmico
e harmónico agradável produzido pelas sequências
fónicas de um sintagma, de uma micro-estrutura textual. Quando
um poema é construído com ritmo, cadência, rima,
aliteração, e determinadas intercalações
que contribuem para reforçar a harmonia e a musicalidade, diz-se
que ele é caracterizado pela eufonia.

VI. FIGURAS RELACIONADAS COM A INVERSÃO DA ORDEM
NATURAL DAS PALAVRAS:
1. INVERSÃO
No geral este termo
refere-se à troca de posição entre o sujeito e
o verbo. Na inversão não se intercala qualquer palavra
alheia ao grupo sintáctico:
"Um
ramo na mão tinha.." (Camões)
"Voavam
folhas amareladas por entre saudades emurchecidas" (Cari)
"Abandonaram
os ninhos as andorinhas e despediram-se na aventura das suas asas."
(Cari)
2. HIPÉRBATO
Designa a transferência
de palavras e as construções realmente insólitas
que contribuem para a transformação artística da
linguagem. Geralmente, o hipérbato é utilizado seja para
que a nossa atenção se centre sobre o elemento deslocado,
seja para se obter determinados efeitos fónicos ou outros.
O HIPÉRBATO
é uma figura de construção que consiste na inversão
violenta da ordem normal dos membros de uma frase, podendo manifestar-se
pela separação do substantivo e do adjectivo, pela colocação
do sujeito ou do verbo no fim da oração, pela alteração
do lugar habitual de complementos regidos preposicionalmente, etc.
O hipérbato
foi utilizado com muita frequência na poesia barroca. O deslocamento
dos adjectivos constitui o mais clássico e eficaz dos HIPÉRBATOS.
"Casos
que o Adamastor contou futuros" (L. Camões)
"Tamanho
o ódio foi e a má vontade" (L. Camões)
"Que
sejam, determino, agasalhados
Nesta costa africana como amigos." (Camões)
"O
céu fere com gritos nisto a gente" (Camões)
"E
num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Corendo com firmeza, assomam as varinas." (Cesário Verde)
"
Nas pernas me fiava eu." (Aquilino Ribeiro)
"Essas
que ao vento vêm / Belas chuvas de Junho!" (Joaquim Cardoso)
3. ANÁSTROFE
É um tipo
de HIPÉRBATO, mas cuja inversão da ordem natural das palavras
na cadeia sintagmática se revela menos violenta:
"Qual
vermelhas as armas faz de brancas," (Lus. VI, 15)
"Dos
cavalos o estrépido parece" (L. Camões)
"de
África as terras e do Oriente os mares" (L. Camões)
"Longas
são as estradas da Galileia." (Eça de Queirós)
"Vingai
a pátria ou valentes / Da pátria tombai no chão!"
(Fagundes Varela)
4. ANACOLUTO
Esta figura afecta
a sintaxe de forma abrupta. A impaciência do pensamento provoca
uma violência na lógica formal do discurso. Consiste em
fazer subentender o correlativo de uma palavra expressa, em deixar só
uma palavra que reclama a presença de uma outra, sua "companheira".
Este procedimento resulta do facto do locutor dedicar mais atenção
ao pensamento do que à organização sintáctica
(ver SÍNQUISE)
O anacoluto verifica-se,
por exemplo, quando uma oração que parece ser a principal
fica em suspenso pelo aparecimento de outra oração que
a faz derivar num outro sentido:
"A
noite
__ Como ela vinha!
Morna, suave,
muito branca, aos tropeções
Já solene as coisas descia __ E eu nos teu braços deitado
A té sonhei que morria." (António Botto)
"Amigas,
o meu amigo
dizedes que faz enfinta." (Johan Garcia de Guylhade)
"__
Que menos é querer matar o irmão
Quem contra o rei e a pátria se alevanta" Camões)
"Este
povo, que é o meu, por quem derramo
As lágrimas, que em vão caídas vejo [...]
Por ele a ti rogando, choro e bramo" (Camões)
"Tua
mãe, não há idade nem desgraça que
lhe amolgue a índole rancorosa." (Camilo)
"Uma
das carabinas que guardava atrás do guarda-roupa, a gente
brincava com elas de tão imprestáveis." (José
Lins do Rego)
"Eu
, parece-me que sim; pelo menos nada conheço, que se lhe
aparente." (M. de Sá-Carneiro)
5. SÍNQUISE
A SÍNQUISE
corresponde ao caos da sequência vocabular da frase, o qual resulta
do emprego da repetição da anástrofe e do hipérbato
e chega quase a obscurecer o sentido da frase:
"Com
quem foram contino sopeados
Estes de quem o estais agora vós,
Por Dinis e seu filho sublimados
Senão com os vossos pais e avós?" (Camões)
"maravilhas
em armas estremadas,
e de escriptura dinas elegante,
fizeram cavaleiros nesta empresa" (L. Camões)
"Lícias,
pastor __ enquanto o sol recebe,
Mugindo, o manso armento e ao largo espraia,
Em sede abrasa, qual de amor por Febe,
__ Sede também, sede maior, desmaia." (Alberto de Oliveira)
[Entenda-se: ''Lícias,
pastor, enquanto o manso armento recebe o sol e, mugindo, espraia ao
largo __, abrasa em sede, qual desmaia de amor por Febe, sede também,
sede maior.''
VII. FIGURAS CARACTERIZADAS PELA OCULTAÇÃO
DE ELEMENTOS FRÁSICOS
1. ELIPSE (Propriamente Dita)
A ELIPSE propriamente
dita consiste em não utilizar na frase elementos que, em princípio,
aí deveriam figurar. Trata-se da supressão de palavras
que seriam necessárias à plenitude da construção,
mas em que os elementos expressos permitem compreender o sentido completo,
sem que haja obscuridade ou incerteza:
"Um
automóvel rápido; outro; outro ainda..." (Eugénio
de Andrade) [O indefinido "outro" reenvia para automóvel]
"A
cada um o que é seu" (subentende-se 'deve dar-se').
"Longe
da vista, longe do coração." [Subentende-se «aquele
que se encontra afastado]
"Fizeste
a tarefa? __ Já." [ausência da especificação
da tarefa, subentendível pelo contexto]
"Desce
por fim sobre o meu coração / O olvido. Irrevocável.
Absoluto." (Camilo Pessanha) [Subentende-se "o olvido desce irrevocável,
o olvido desce absoluto"]
"Por
que ides sem mim, não me levais?" (Camilo Pessanha) [Subentende-se
'por que']
A ELIPSE, enquanto
recurso condensador da expressão, evidencia efeitos estilísticos
apreciáveis:
a) Na descrição
esquemática de ambientes, de estados de alma, de perfis:
"Subiu
a escda. A cama arrumada. O quarto. O cheiro do jasmineiro. E a voz de
uma das filhas, em baixo:
__ Papai! O telefone..." (Aníbal M. Machado)
"Gente
estranha, para os negros, aqueles caçadores quase selvagens, as
barbas crescidas, os pés descalços, os rifles nas mãos."
(Adonias Filho)
b) Em anotações
rápidas, como as de um diário íntimo, de um caderno
de notas:
"Outubro,
10 __ Depressão. Hipocondria. Reacções súbitas
de ódio. Depois, desalento. Pelo menos, antes havia um mistério
algo excitante. Agora, mais melancolia, apenas." (Ciro dos Anjos)
c) Na enunciação
de pensamentoscondensados, nos provérbios, nos ditos sentenciosos
ou irónicos:
"A
paciência da Esfinge. Que paciência!" (Aníbal M. Machado)
"Tal
pai, tal filho." (Prov.)
d) Nas enumerações,
onde a omissão do artigo definido pode sugerir a ideia de acumulação,
de rapidez:
"Cristais
retinem de medo,
Precipitam-se estilhaços,
Chovem garras, manchas, laços...
Planos, quebras e espaços
Vertiginam em segredo." (M. De Sá-Carneiro)
2. ZEUGMA
Na Antiguidade,
esta figura era considerada como um erro. Porém, os efeitos surpreendentes
que por meio dela se podem alcançar tornanam-na um recurso muito
utilizado na literatura cómica. Alguns estudiosos preferem o
termo SILEPSE.
É frequente
considerar-se a ZEUGMA como uma das formas da ELIPSE.
Neste caso, a ZEUGMA
consiste em fazer participar de dois ou mais enunciados um termo expresso
apenas em um deles:
"João
Fanhoso abriu os olhos pesados de preguiça: primeiro um, depois
o outro." (Mário Palmério) [Subentende-se: 'primeiro
abriu um, depois abriu o outro']
Alguns, porém,
reservam esta denominação unicamente para os casos em
que se subentende um verbo anteriormente expresso, mas sob outra flexão:
"A
igreja era pobre. Os altares, humildes." (C. Drummond de Andrade)
[Subentende-se: 'Os altares eram humildes']
E há ainda
quem distancie a área da ZEUGMA, da da ELIPSE propriamente dita,
porque, segundo os defensores de tal princípio, na ZEUGMA as
palavras suprimidas não se encontram expressas em lado algum,
e, além disso, porque a ELIPSE não estabelece qualquer
dependência entre as proposições ou os complementos,
como sucede com a ZEUGMA.
Para estes, a ZEUGMA
consiste em ligar complementos de naturezas diferentes a um mesmo verbo
ou a uma mesma preposição __ o que equivalerá a
dizer que a zeugma se realiza sempre que dois ou mais termos de uma
frase se encontram ligados a um mesmo verbo ou a uma mesma preposição,
mas sem que haja uma ligação natural e evidente entre
eles:
"Rufino
reluzia todo de orgulho e de suor" (Eça de
Queirós)
"Entrou,
pousou o seu chapéu e uma pergunta" [pousou
serve de predicado a duas proposições: pousou o seu chapéu;
pousou uma pergunta]
"Ergueu
os olhos e uma perna para o céu." (Stern) [Depreende-se 'ergueu
os olhos para o céu e ergueu uma perna']
"Onde
o dia é comprido e onde breve" (Lus. I, 27) [Subentende-se
'onde o dia é comprido e onde o dia é breve']
"Com
um sorriso denegrido pelos dentes e pela raiva..." (Camilo Castelo
Branco) [Pressupõe-se que os dentes estão manchados de
negro e que essa negritude é, metaforicamente, acentuada pela
raiva]
3. SILEPSE
Esta figura refere
a discordância em género, número e pessoa. O acordo
entre elementos constitutivos da frase não obedece às
regras morfológicas, antes se estabelece «ad sensum»,
isto é, o sentido de que a palavra ou expressão é
portadora é que determina a concordância:
"A
maior parte dos homens buscam a felicidade no dinheiro." ("maior parte"
exigiria a forma verbal "busca")
"Se
esta gente [...]
Não queres que padeçam vitupério" (Camões)
(o predicado de "esta gente" seria "padeça")
"A
gente vamos ao cinema" ("a gente" teria por predicado "vai", mas em
"a gente" encontra-se implicado "nós")
"Um
bando de abutres pairavam sobre aquele lugar" (pairavam está
a concordar com abutres em vez de concordar com bando)
"Todos
os filhos de Adão sofremos a morte." (sofremos,
refere-se a nós __ os filhos de Adão __ e não
a 'Todos os filhos de Adão', cujo acordo exigia a forma
sofreram)
"Um
grupo mais numeroso descia da ladeira e parava a alguns passos.
Falavam alto, comentando ainda as peripécias do leilão."
(Afrânio Peixoto)
4. PERÍFRASE
A PERÍFRASE
propriamente dita é uma designação descritiva que
substitui uma palavra. Ou seja, consiste em exprimir por meio de expressões
ou frases completas o que seria possível dizer-se numa só
palavra.
Na PERÍFRASE
o verdadeiro estado de coisas não nos é fornecido directamente,
mas terá de ser deduzido por via indirecta:
"...
a gente chama
Aquele que a salvar o mundo veio" (L. Camões) => 'Cristo'.
"Iam-se
sombras lentas desfazendo
Sobre as flores da terra em frio orvalho" (Camões) => ia
amanhecendo.
"Lhe
dá no Estígio Lago eterno ninho." (Camões) =>
isto é, mata-o.
"Tenho
estado doente. Primeiramente, estômago __ e depois, um incómodo,
um abcesso naquele sítio em que se levam pontapés..."
(Eça de Queirós) [a perífrase coabita com
o eufemismo]
A PERÍFRASE,
enquanto intensificação poética do estranhamento,
pode aparecer :
a) Como
alusão mitológica:
"Mas
assim como os raios espalhados
do Sol foram no mundo e num momento
apareceu no subido horizonte
da moçade Titão a roxa fonte." (L. de Camões)
=> 'Aurora';
b) Como
Metáfora:
"Oh
mil vezes cristal afortunado,
Alpe luzidio, luminar nevado" (Fénix Renascida) => 'lustre
de cristal'.
5. ALUSÃO
A ALUSÃO
consiste na utilização de uma frase ou expressão
em que o ouvinte terá que fazer uso dos seus conhecimentos para
que o sentido se torne claramente perceptível.
"Fugi
das fontes: lembre-vos Narciso." (Reenviando, claro, para a lenda
de Narciso, vendo a sua imagem projectada na água).
VIII. FIFURAS RELACIONADAS COM A ENUMERAÇÃO
E DEPENDÊNCIA INTERELEMENTOS
1. ENUMERAÇÃO/SERIAÇÃO/CONGLOMERAÇÃO
Trata-se de uma
técnica de escrita que justapõe palavras ou grupos de
palavras, suprimindo ao máximo as partículas de ligação.
Este processo está
intrinsecamente ligado a um outro denominado ENUMERAÇÃO,
ou seja, a apresentação sucessiva de vários elementos.
Chama-se ENUMERAÇÃO
SIMPLES, quando os vários elementos apresentados sequencialmente
são do mesmo género:
"Flores,
perfumes de um jardim aberto
Canto de aves, murmúrios de água fria." (Cabral do
Nasciemnto)
Toma o nome de
ENUMERAÇÃO RECOLECTIVA, se entre os vários elementos,
sem relação aparente, apenas o último revela algo
que lhes é comum, aproximando-os:
"Em
vós, ó coisas grandes, banais, úteis, inúteis
Ó coisas todas modernas" (F. Pessoa)
Recebe a denominação
de ENUMERAÇÃO CAÓTICA, quando os elementos parecem
estar dispostos ao acaso, sem qualquer relação entre si:
"Cão
que matinalmente farejava a calçada
as ervas os calhaus os seixos e os paralelipípedos
os restos de comida os restos de manhã
a chuva antes caída..." (Ruy Belo)
NOTA: Há
quem estabeleça uma distinção entre de enumeração,
ou seriação:
__ Quando se trata
apenas de enumerar elementos, em que cada um deles conserva a sua independência,
denomina-se ENUMERAÇÃO, como acontece vulgarmente na linguagem
quotidiana:
"É
preciso comprar massa, arroz, fruta, bebidas..."
__ Mas quando cada
membro enumerado perde a sua independêcia e surge como uma espécie
de onda isolada num grande movimento transbordante, então fala-se
de AGLOMERAÇÃO:
"Branca
e pequenina, ligeirinha e leve,
Corta por abismos, plagas sem faróis,
Stepes infindáveis que ninguém descreve,
Lúgubres desertos de mudez e neve,
Bátegas de brasas, turbilhões de sóis." (G.
Junqueiro)
Na ENUMERAÇÃO
(ou AGLOMERAÇÃO) está presente o ASSÍNDETO
ou o POLISSÍNDETO.
1.1. ASSÍNDETO
O ASSINDETO
é uma figura de PARATAXE que omite os elementos de ligação
entre vocábulos ou orações, sobretudo as conjunções
de coordenação, e, em particular a copulativa e
(geralmente substituída pela vírgula, mas podendo não
aparecer qualquer sinal de pontuação). Este procedimento
confere maior vigor à frase ou ao verso e produz, entre outras,
uma sensação de movimento:
"Mas
o Luso, arnês, couraça e malha
Rompe, corta, desfaz, abola e talha." (Camões)
"...
uma vasta cidade..., onde o homem tenha durante o dia os clubes, o cavaco,
os museus, as ideias, o sorriso de outras mulheres __ a mulher tenha as
ruas, as compras, os teatros, a atenção de outros homens;"
(Eça de Queirós)
"Cão
que matinalmente farejava a calçada
as ervas os calhaus os seixos e os paralelipípedos
os restos de comida os restos de manhã
a chuva antes caída..." (Ruy Belo)
"Eu
que sou feio, sólido, leal, / A ti, que és bela,
frágil, assustada" (C. Verde)
"...
e foi depois tomado e preso e arrastado e
decepado e enforcado" (Fernão Lopes)
1.2. POLISSÍNDETO
Contrariamente
ao que acontece com o ASSÍNDETO, o POLISSÍNDETO consiste
na repetição intencional da conjunção, visando
criar determinadas sugestões, ou pode ocorrer, com ou sem valor
sugestivo, para preservar um determinado metro (mesmo número
de sílabas):
"Que
as estrelas e o céu e o ar vizinho
E
tudo quanto se via namorava" (Camões)
"Elas
são quatro mulheres, o dia nasce, elas acendem o lume. Elas cortam
o pão e aquecem o café. Elas picam cebolas e
descascam batatas. Elas migam sêmeas e restos de comida azeda.
Elas chamam ainda escuro os homens e os animais e as crianças.
Elas enchem lancheiras e tarros e pastas de escola com latas
e buchas e fruta embrulhada em pano limpo." (Maria Velho
da Costa)
"Aqui
e no pátio e na rua e no vapor e no
comboio e no jardim e onde quer que nos encontremos"
(Sebastião da Gama)
Assim, poder-se-á
também utilizar, em vez de assíndeto e polissíndeto,
as designações:
__ SERIAÇÃO
ASSINDÉTICA quando os membros isolados ficam sem ligação
linguística (como acontece no poema de Junqueiro, e nos exemplos
relativos ao assíndeto);
__ SERIAÇÃO
SINDÉTICA se são unidos por e, ou, ou por
qualquer outro elemento copulativo (como sucede nos exemplos referentes
ao polissíndeto).
NOTA: Enquanto
a PARATXE tem incidência sobre a coordenação de
frases, sem relações de dependência, a HIPOTAXE
encontra-se relacionada com o processo de subordinação
de orações, estabelecendo laços de dependência
entre elas: "Lamentava
a toda a hora que tivessem acabado os incêndios grandes e devastadores
como havia antigamente." (Manuel da Fonseca)
X. OUTRAS FIGURAS
1. GRADAÇÃO
A gradação
consiste numa seriação não de elementos, mas de
ideias. Daí que seja natural considerar-se dois tipos de gradação:
__ GRADAÇÃO
ASCENDENTE ou PROGRESSIVA (equivalente a CLÍMAX __ ver ),
quando essa seriação é feita segundo uma ordem
em crescendo, isto é, que vai manifestando uma intensificação
progressiva:
"Os
vales aspiram a ser outeiros, e os outeiros a ser montes, e os montes
a ser Olimpos e a exceder as nuvens." (António Vieira)
"Deu
sinal a trombeta castelhana / Horrendo, fero, ingente e temeroso."
(Camões)
"Correi,
subi, voai, num turbilhão fantástico." (G. Azevedo)
"Correi,
subi, voai, num turbilhão fantástico" (G. Azevedo)
__ GRADAÇÃO
DESCENDENTE ou REGRESSIVA, quando a seriação de ideias
é feita de forma que as ideias ou os conceitos vão diminuindo
de intensidade:
"Um
clarão no céu incendiou tudo, as formas ergueram-se à
sua luz, as aves nocturnas refugiavam-se na penumbra, e logo as trevas
invadiram de novo a aldeia." (Cari)
"Uma
pequena coisa, uma insignificância, uma nica, tudo o afligia."
2. PERGUNTA DE RETÓRICA (ou INTERROGAÇÃO)
A utilização
da pergunta de retórica não pretende obter ou dar qualquer
resposta. Ela é introduzido seja para tornar mais vivo o discurso,
seja para realçar o pensamento, seja para reflectir sobre algo
que é inquestionável...
"Este
inferno de amar __ como eu amo! __
Quem mo pôs aqui n' alma... quam foi?
Esta chama que me alenta e consome,
Que é a vida __ e que a vida destrói __
Como é que se veio a atear,
Quando __ ai quando se há-de ela apagar?" (Almeida Garrett)
"Que
fica da vida? Os grandes feitos ou o dia?" (Ruy Belo)
"Que
véu de fogo nos teus ombros arde?" (Carlos de Oliveira)
"De
resto, quem, no nosso século, teria coragem de lapidar a Samaritana?"
(Aquilino Ribeiro)
3.
PERÍFRASE
Por
PERÍFRASE entende-se
4.
ALUSÃO
Por
ALUSÃO entende-se
5. APÓSTROFE ou INVOCAÇÃO
Por APÓSTROFE
entende-se uma interpelação a alguém, presente
ou ausente, leitor ou ouvinte, personagem ou objecto personificado,
humano ou divino.
A introdução
da apóstrofe interrompe a linha de pensamento do discurso, destacando-se
assim a entidade a que se dirige e/ou a ideia que se pretende pôr
em evidência com tal invocação. Realiza-se por meio
do vocativo:
"Eusébia,
que dizes tu nessa voz casquinhenta?" (Agustina Bessa Luís)
"Homens:
porque não nasci apenas no espelho,
Sem alma deste lado?" (José Gomes Ferreira)
"Contra
uma dama, ó peitos carniceiros,
Feros vos amostrais e cavaleiros?" (Camões)
"Mortos!
Mortos! Desenganai estes vivos! Dizei-nos que pensamentos e sentimentos
foram os vossos quando entrastes e saísrtes pelas portas da morte!"
(António Vieira)
"Ó
tu, Guarda divina, tem cuidado
De quem, sem ti..." (Camões)
6. EPIFONEMA
Por Epifonema Entende-se
uma sentença em tom exclamativo com que se finaliza um discurso.
EPIFONEMA e EPÍFRASE
são por vezes utilizados como sinónimos de PAREMBOLE,
nomeadamente para designar as exclamações indignadas,
as reflexões moralizadoras, as conclusões e ideias gerais
em que os oradores ou personagens fictícias comentam os seus
próprios discursos.
"Tanta
veneração aos pais se deve!" (Lus. III, 33)
"Oh!
Grandes e gravíssimos perigos, / Oh! Caminho da vida nunca certo,
/ Que, aonde a gente põe sua esperança, / Tenha a vida tão
pouca segurança!" (Camões, Canto I) "No
mar, tanta tormenta e tanto dano,
Tantas vezes a morte apercebida;
Na terra, tanta guerra, tanto engano,
Tanta necessidade avorrecida!" (Camões)
"Oyóla
el pajarillo enternecido
y a la antigua prisión volvió las alas:
¡que tanto puede una mujer que llora!" (Lope de Vega.)
Relacionadas com a REPETIÇÃO de SONORIDADES
e de CONCEITOS
APOFONIA
APOFONIA: Consiste
em passar-se de uma palavra ou de um conjunto de sílabas a um
outro, mantendo-se entre os dois uma diferença mínima.
BATOLOGIA
BATOLOGIA: É
uma redundância que consiste em insistir sobre um tema de forma
rítmica e acumulativa, como é o caso de dizer-se, por
exemplo, «morto e enterrado», «morreu, acabou-se».
Isto é, um repetição inútil e pouco agradável
da mesma ideia no discurso. Corresponderá ao que vulgarmente
se diz "estar sempre a bater na mesma tecla".
PERISSOLOGIA
PERISSOLOGIA: Consiste
en reforçar uma declaração por meio de precisões
teoricamente inúteis. Trata-se de uma espécie de pleonasmo
de sentido supérfluo:
"Vi-o com os meus próprios olhos"
"Que oca verborreia!"
EUFUISMO
Por EUFUISMO entende-se o estilo afectado e artificial,
resultante, frequentemente, do abuso da aliteração e da
antítese, ou do sobrecarregar de conceitos e de alusões
a figuras mitológicas.
TAUTOLOGIA
TAUTOLOGIA: É
uma definição repetitiva fundada sobre o princípio
da identidade. Em retórica, significa toda a expressão
que, embora por palavras diferentes, repete o mesmo pensamento, a mesma
ideia, sem acrescentar qualquer contributo para a clarificação
do sentido.
TRUISMO -- PALISSADA --LUGAR-COMUM
__ TRUISMO: um
TRUISMO é uma afirmação que não contém
nada para além do evidente e do banal.
__ PALISSADA (de
La Palisse): a verdade do sentido da expressão resulta das palavras
que se utilizam: "É errado confundir a realidade com a aparência."
__ LUGAR-COMUM:
É uma expressão sentenciosa tida como verdadeira: "Os
Catagineses são pérfidos."
Por vezes, o LUGAR-COMUM apresenta-se sob uma forma implícita,
o que o imuniza contra o cepticismo: "A perfídia cartaginesa".
EXPLEÇÃO
EXPLEÇÃO:
Consiste em utilizar palavras ou construções não
indispensáveis, geralmente autorizadas pela gramática
prescritiva. Trata-se da utilização de palavras expletivas,
ou seja, de palavras que, não exprimindo uma ideia propriamente
dita, ou uma ideia nova ou particular, parecem entrar na frase apenas
para a encher materialmente e dar-lhe um aspecto de mais completa. Porém,
por vezes, a sua utilização serve para reforçar
o sentimento por que se é afectado.
CALEMBUR
CALEMBUR: Serve-se
da semelhança de som entre duas palavras diversas ou entre dois
grupos de palavras.
JUSTAPOSIÇÃO
JUSTAPOSIÇÃO:
A forma mais simples consiste em justapor conjuntos de igual extensão
e jogar com a permanência e a variação.
PARADIÁSTOLE
PARADIÁSTOLE:
Alinhamento de segmentos com igual estrutura sintáctica, igual
ritmo e extensão.
HIPOZEUXE (ou SUBNEXÂO):
quando se trata de um simples paralelismo perceptível ao nível
das ideias, mas não ao nível sonoro.
PARÁFRASE
PARÁFRASE:
Consiste numa iteração redundante, explicativa e amplificadora.
B. Relativas à CONSTRUÇÃO FRÁSICA
RITMO
RITMO: Todo o RITMO
que se imprime ao discurso constitui uma figura. O RITMO resulta o mais
frequentemente de um arranjo repetitivo das sílabas, sobretudo
nas língaus em que os sons se repartem em categorias contrastantes,
como o caso das vogais longas que se opõem às vogais breves,
e das sílabas acentuadas que se opõem às não
acentuadas. O RITMO é indiscutível na poesia, mas surge
também na prosa.
Os Antigos praticavam
formas de ritmo não repetitivas: na poesia, através da
construção de versos chamados logaédicos, isto
é, irregulares, feitos de pés diferentes (sendo o pé
células rítmicas bem definidas); e na prosa, por meio
da
CLÁUSULA ou CURSUS
CLAUSULA: A noção
de CLÁUSULA pode aplicar-se aos finais de parágrafo que
parecem construídos sob uma certa métrica poética.
Na, na eloquência antiga, era frequente terminar-se um parágrafo
ou um discurso com uma cadência rítmica emprestada à
poesia, com vista a imprimir uma forma firme e obter maior força
expressiva. As formas mais conhecidas são:
__ Cursus planus
__ Cursus tardus
__ Cursus velox
REVERSÃO ou ANTIMETÁBOLE
REVERSÃO
(ou ANTIMETÁBOLE __ o termo metábole significa, em princípio,
alteração ou deslocamento, o que o torna próximo
de TROPO): Trata-se de uma forma primitiva de QUIASMO, que consiste
em opor os mesmo termos em ordem invertida. Porém, a inversão
provoca, não raras vezes, alteração ao nível
do sentido, fazendo lembrar a ANTANACLASE:
"O rei dos vinhos, o vinho dos reis" (Anúncio publicitário)
ANTEISAGOGE
ANTEISAGOGE: É
uma antítese discursiva, que se poderia classificar dentro das
figuras de pensamento ou de destaque. Consiste em descrever um objecto
comparando o que ele não é ao que ele efectivamente é.
DISSIMETRIA ou ASSIMETRIA
DISSEMETRIA (ou
ASSIMETRIA): Um dos tipos consiste num desenvolvimento desequilibrado
de uma frase. O outro tipo consiste em colocar, em funções
análogas, termos de natureza diferente: "Ele quer o poder e não
partilhá-lo com ninguém."
TMESE
TMESE: usual na
poesia, esta figura consiste na separação de uma palavra
composta por meio da interposição de outros membros da
frase: "Dar-te-ei, Senhor, ilustre relação" (L. Camões)
HISTÉRON PROTÉRON ou HISTEROLOGIA
HISTÉRON
PROTÉRON (ou HISTEROLOGIA): É uma inversão estilística
praticada na Antiguidade, que afecta não a ordem gramatical das
palavras, mas a ordem lógica e cronológica dos factos
__ servindo para demonstrar a desordem de espírito que fala;
mas também pode corresponder a uma liberdade criativa, vindo
em primeiro lugar o que a lógica implicaria vir posteriormente.
C. RELATIVAS ao REALCE DAS IDEIAS (Mise en valeur)
HIPOTIPOSE ou ENARGIA
HIPOTIPOSE (ENARGIA):
É uma descrição ou um récit que não
só procura significar o seu objecto por meio da linguagem, mas
esforça-se sobretudo por tocar a imaginação do
receptor e evocar a cena descrita através de estratagemas imitativos
ou associativos. Pode-se ligar a HIPOTIPOSE à arbitrariedade
saussurriana do signo linguístico, pela estimulação
dos recursos plásticos e miméticos que a linguagem possibilita.
ACUMULAÇÃO
ACUMULAÇÃO:
A ACUMULAÇÃO descritiva cristaliza a obsessão e
torna presenrtes à imaginação as cenas evocadas.
EPITOCRASMO
EPITROCASMO: É
uma enumeração copiosa de elementos justapostos, com ritmo
insistente e sacudido.
EXPOLIÇÃO
EXPOLIÇÃO:
É uma outra forma de acumulação retórica,
que consiste em enumerar vários argumentos, com uma insistência
titânica. Outras vezes a EXPOLIÇÃO consiste em voltar
insistentemente ao mesmo argumento, apresentado sob roupagens diferentes.
HARMONISMO: Combinação
de sonoridades escolhidas, casadas, moduladas, com intenções
sugestivas.
INTERROGAÇÃO:
A interrogação presta-se melhor que a ACUMULAÇÃO
ao ajustameto estilístico, porque permite deslizar de uma função
para outra e colocar a sua acção interpelativa ao serviço
de uma expressão picante.
SUBJECÇÃO
SUBJECÇÃO:
proposição interrogativa utilizada em substituição
de uma subordinada hipotética ou outra.
APOSIÇÃO:
Designa uma construção gramatical corrente que se converte
numa figura poética e imaginativa quando se assemelha ao APÓSTROFE
ou o prolonga.
EPÍTETO HOMÉRICO
EPÍTETO
HOMÉRICO: Constitui um artifício ornamental, entre outros
que assinalam a pertença de um texto a um estilo literário.
PAREMBOLE
PAREMBOLE: É
um corte mais ou menos deslocado em relação ao discurso
em que ela se encontra, como um aparte no teatro.
PARÊNTESIS
PARÊNTESIS:
designa uma frase introduzida sem ligação gramatical ou
lógica aparente com a trama principal do texto, mas criando um
contraponto narrativo ou temático e alargando o campo imaginário
suscitado pela obra.
TAPINOSE
TAPINOSE: É
um procedimento satíricoatravés do qual se exprime uma
ideia pejorativa sob a forma de uma constatação neutra
que não compromete: "Ele não é completamente insensível
ao charme da sua secretária."
HIPOCORISMO
HIPOCORISMO: Trata-se
de uma figura, sobretudo morfológica, através da qual
se manifesta o afecto por meio de diminutivos ou apelidos aparentemente
depreciativos: "Meu ratinho!"
Relacionadas com a ELIPSE
BRAQUILOGIA
BRAQUILOGIA: É
uma expressão curta, concisa e densa (ramassée), resultante
de uma ondensação e não de uma omissão que
se pode localizar ou colmatar. Essa concisão, implicando frequentemente
omissão de pensamentos necessários a uma perfeita compreensão
do sentido, acaba por acarretar uma certa obscuridade.
ANANTAPODOTON
ANANTAPODOTON:
É uma forma particular de ABRUPÇÃO ou APOSIÓPESE:
São termos eruditos para designar as construções
interrompidas por um silêncio e continuadas por uma digressão.
Relativas À EXPRESSÃO DO PENSAMENTO
APÓSTROFE ou INVOCAÇÃO
COMINAÇÃO
COMINAÇÃO:
Trata-se de uma figura de advertência ou de intimidação
(ameaça). O emprego deste termo erudito provém de um outro
tipo de figura, o PEDANTISMO.
DIASIRME
DIASIRME: É
um discurso agressivo, em que a IRONIA se torna áspera e directamente
denunciadora.
ASTEISMO
ASTEISMO: É
uma forma de IRONIA invertida, que consiste em adular alguém
jogando com a comédia da censura, da reprovação.
É zombar com alguém ou alguma coisa, mas de forma um pouco
delicada:
"Não há dúvida... és um artista como não
há outro nossa pequenina terra!" "Aqui está um palacete
que não vale um chavo!"
CONTRAFISÃO
CONTRAFISÃO:
Apresenta-se geralmente como uma exclamação irónica,
em forma de conselho.
CLEUASMO ou AUTOCATEGOREMA ou PROSPOLESE
CLEUASMO (também
chamado AUTOCATEGOREMA ou PROSPOLESE): É um arrazoado em forma
de confissão.
PERMISSÃO ou EPÍTROPE
PERMISSÃO
(ou EPÍTROPE): É uma apóstrofe através da
qual se convida ironicamente o destinatário a perseverar na sua
torpeza, vileza. Trata-se de provocar vergonha, de dissuadir sob a aparência
de persuadir.
IMPRECAÇÃO
IMPRECAÇÃO:
Exprime a raiva e o desejo de vingança. Trata-se de uma praga
ou maldição rogada contra uma entidade:
"Que o Diabo te carregue!."
"Que um raio te partisse!"
DEPRECAÇÃO
DEPRECAÇÃO:
Atitude pela qual se tenta desviar um mal por meio da oração.
É o que frequentemente acontece nas súplicas aos entes
sobrenaturais, face às calamidades ou a algo de trágico:
"Ó cristãos, pelas chagas de Cristo, e pelo que deveis a
vossas almas, que não queirais que vos aconteça tão
grande infelicidade [...]" (A. Vieira)
OPTAÇÃO
OPTAÇÃO:
É a expressão de um desejo, sobretudo quando se desenvolve
em modo lírico, estando a realização do desejo
sujeita a decisões supra-humanas e que se procura obter por meio
de encantamentos.
DELIBERAÇÃO
DELIBERAÇÃO:
Fase de um discurso durante a qual se delibera.
APORIA
APORIA ou DÚVIDA:
Fase do discurso durante a qual se coloca algo em dúvida __ dúvida
essa que tanto pode ser real como fictícia.
PARRÉSIA ou LICENÇA
PARRÉSIA
ou LICENÇA: Fase do discurso em que se diz, sem restrições,
o que vai na alma. Corresponde igualmente a atrevimentos de linguagem,
a afirmações arrojadas, com recurso a termos grosseiros
e calão.
PARIPONOÏAN
PARIPONOÏAN:
É um enunciado violentamente ilógico.
PRECAUÇÃO
PRECAUÇÃO:
É uma entrada no assunto, em que se anuncia modestamente os seus
limites.
CONCESSÃO ou PARAMOLOGIA
CONCESSÃO
ou PARAMOLOGIA: É um momento do discurso onde se admite até
que ponto se está devidamente fundamentado face aos argumentos
contrários, a fim de melhor os refutar.
SINCORESE
SINCORESE: É
uma CONCESSÃO aparente, mas mais ou menos irónica.
REJEIÇÃO
REJEIÇÃO:
É uma espécie de CONCESSÃO invertida: rejeita-se
provisoriamente um argumento para o retomar em seguida.
ANTECIPAÇÃO ou HIPÓBOLE ou PROLEPSE
ANTECIPAÇÃO
ou HIPÓBOLE ou ainda PROLEPSE: È uma manobra pela qual
se responde às objecções previstas.
CORRECÇÃO
CORRECÇÃO:
Abrange um conjunto de procedimentos pelos quais se retoma o que fora
dito para corrigir, precisar, acrescentar, encarecer (ultrapassar),
etc.
RETROACÇÃO ou EPANARTOSE
RETROACÇÃO
ou EPANARTOSE: É uma CORRECÇÃO irónica que
contradiz o primeiro enunciado.
ANTORISMO
ANTORISMO: É
uma réplica que retoma de modo contundente (áspero) as
falas de um adversário.
ANTIPARÁSTASE
ANTIPARÁSTASE:
É uma argumentação por meio da qual se tenta reverter
a parte mais frágil do discurso em seu favor.
APODIOXIS ou APODIOXE
APODIOXIS (ou APODIOXE):
É a rejeição de um argumento como absurdo, para
evitar a discussão.
PRETERIÇÃO
PRETERIÇÃO
ou PRETERMISSÃO: Consiste em enunciar que não se vai tratar
um determinado assunto, quando na realidade é dele mesmo que
se está a falar. Esta estratégia tem por finalidade afastar
as objecções e associar o público às teorias
que se expõem.
ASSOCIAÇÃO
ASSOCIAÇÃO:
Consiste em dar lições incluindo-se entre os destinatários
das mesmas. O pronome nós serve de introdutor a tal procedimento.
A humildade aparente do moralizador volta-se por vezes contra ele próprio,
dado que um público pouco esclarecido acerca das convenções
pode incorrer em compreender o sermão como sendo de primeira
pessoa e crer que o orador está a fazer a sua autocrítica.
COMUNICAÇÃO
COMUNICAÇÃO:
É uma atitude pela qual se pretende persuadir o mais eficazmente
possível aquele a quem ou contra quem se fala.
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Gomes (1966): Compêndio de Gramática Portuguesa:
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