A. FORMAS DIVERGENTES . __ Se duas ou mais palavras diferentes provêm do mesmo étimo latino, denominam-se formas divergentes (ou alótropos).
Vejamos, por exemplo, as palavras:
| LATIM | Via Erudita | Via Popular |
| macula | mácula | mancha |
| atriu | átrio | adro |
| solitariu | solitário | solteiro |
| legale | legal | leal |
| plaga | plaga | praga; chaga; praia |
| plumbu | chumbo/plúmbeo | prumo |
CAUSAS DAS FORMAS DIVERGENTES
1. CORRENTE POPULAR
As palavras, ao serem pronunciadas pelo povo, acabaram, segundo as épocas, por dar origem a formas diversas. Vejamos alguns exemplos:
plumbu deu origem a chumbo e a prumo;
articulu originou artigo e artelho;
corona gerou coroa e coronha.
2. CORRENTE ERUDITA
A chegada do Renascimento e a consequente tentativa de aproximação da Língua Portuguesa à lígua mãe, o Latim, implicou a introdução de vários vocábulos mais próximos do seu étimo originário. Em "Os Lusíadas" encontramos uma grande quantidade de termos eruditos como: tuba (trombeta), ara (altar), flama (chama), hórrido (horrível), gesto (aspecto, rosto), etc.. Termos como estes passaram a coabitar com as outras formas já modificadas pela fonética popular. Assim, por exemplo, temos:
| etimologia | via erudita | via popular |
| duplu | duplo | dobro |
| plenu | pleno | cheio |
| solitariu | solitário | solteiro |
| arena | arena | areia |
| atriu | átrio | adro |
| clamare | clamar | chamar |
| materia | matéria | madeira |
| parabola | parábola | palavra |
PALAVRAS SEMI-ERUDITAS. __ Há também outros vocábulos que, tendo ingressado na língua por via erudita, acabaram por ser alterados ao passarem para o domínio da linguagem corrente, como aconteceu, por exemplo, com:
humanitate > humanidade
macula > mágoa
etc.
3. CORRENTE ESTRANGEIRA
Por outro lado, o natural intercâmbio entre outros povos e outras línguas motivaram igualmente o enriquecimento do nosso idioma, através da importação de novos vocábulos.
B. FORMAS CONVERGENTES
Contrariamente ao que sucedeu com as formas divergentes, as formas convergentes correspondem a homónimos do nosso que procedem de étimos diferentes:
__ são: enquanto adjectivo, provem de sanu e de sanctu; e como forma verbal, deriva de sunt;
__ vão: como adjectivo, tem por étimo vanu; como forma do verbo vir, provem de vadunt;
__ fio: como nome, deriva de filo; como verbo, de fido;
__ rio: como nome, tem origem em rivu; como verbo, em rideo;
__ como: como conjunção ou advérbio, deriva de quomodo; como verbo, de comedo;
__ etc.
A fonética é a única causa que concorre para a formação das palavras convergentes.
C. AO NÍVEL DA CONFIGURAÇÃO SEMÂNTICA
Em muitos dos casos a uma diferença de forma, como acontece com as palavras divergentes (via erudita ou via popular), veio a corresponder uma distinção ao nível semântico. A título de exemplo, vamos apresentar alguns casos:
__ "Solitário" e "solteiro", provenientes de «solitariu», em que o primeiro continua a ter o sentido original ("isolado", "que vive só", "solitário"), enquanto o segundo funciona como antónimo de casado;
__ "Palácio" e "paço" (de palatiu): "Paço" resultante da evolução por via popular (palatiu > paaço >paço) ganhou uma especificidade de conteúdo, como se verifica pelo seu uso __ Paço Episcopal, Paços do Conselho; etc.; por seu lado, Palatium, de onde provém, por via erudita, "Palácio", era, primitivamente, o nome do monte Palatino, em Roma. Como Nero aí construiu uma residência, que viera a tomar o nome do referido monte, o termo acabou por generalizar-se com o sentido de "residência real ou, nobre ou senhorial"
__ "Calamidade" (do latim calamitatem), inicialmente relacionada com «calamus» (cana de cereal, hástia de trigo ou de outro cereal), por essa via começou a designar qualquer fenómeno físico que originasse prejuízos pela perda das colheitas. Este sentido expandiu-se para o de qualquer espécie de desgraça, infelicidade, desventura, calamidade.
__ "Ministro" (de ministru), que em latim significava «o que serve, ou que ajuda» ou mesmo «escravo». Todavia, esta humilde palavra veio a designar, na linguagem política, uma função elevada: Ministro da Economia, Ministro da Cultura, etc.
__ "Senhor", proveniente do étimo é «seniore», comparativo de «senex, senis» (velho), significava inicialmente "mais velho". Como a velhice era encarada como sinónimo de experiência, de saber, ganhou também o sentido de respeitabilidade, de veneração, o qual veio a sobrepor-se ao da idade. Hoje é usado como forma de tratamento, mas marcando uma atitude de respeito face do emissor perante o receptor.
__ "Salário" (do Latim salariu) correspondia à importância concedida aos soldados para comprarem a sua ração de sal. Posteriormente, por alargamento de sentido, passou a significar soldo, ordenado, salário.
__ "Aresta" (de arista) significava barba de milho e, mais tarde, espinha de peixe. Esta segunda acepção fez ganhar o sentido de aspereza, agudeza. Depois, e por alargamento de sentido, passou a referir a ideia de uma dificuldade a transpor: "Limar as arestas" é equivalente a "ultrapassar/solucionar as dificuldades, as incompreensões, os obstáculos".
__ "Gesto" (de gestu) signicava inicialmente maneira de apresentar, porte, atitude, em particular referia-se ao gesto do orador, do actor, à mímica. Em Camões esta palavra aparece, na maior parte das vezes, com o sentido de rosto, semblante, fisionomia:
«Entrava a fermosíssima Maria Polos paternais paços sublimados, Lindo o gesto, mas fora de alegria»Hoje esta acepção desapareceu e o termo passou a designar movimento, aceno.
__ "Decente" e "Indecente", que outrora significavam, respectivamente, o que fica bem, o que é conveniente e, em oposição, o que fica mal, o que é incoveniente, inadequado, hoje é usado com o sentido de indecoroso.
__ "Imbecilidade", que, em sentido etimológico, significava fraqueza, hoje tem o sentido de parvoíce, coisa estúpida.
__ O adjectivo "Peculiar", enquanto forma latina, encontra-se relacionado com pecúlio, com a fortuna pessoal de cada um. Daqui deriva o sentido de pessoal, de próprio; e, depois, de particular, de característico, de especial.
Etimologicamente, peculiar estava associado a pecu, isto é, gado, rebanho (de onde deriva o termo pecuária) e igualmente com pecunia. Esta ligação deve-se ao facto de, nos primitivos tempos da vida económica romana, o gado representar uma fonte de riqueza. Por isso, pecunia correspondia à riqueza em gado. Posteriormente passou a referir a riqueza em geral. E só mais tarde é que se especializou com o sentido de moeda de cobre (donde pecuniário).
__ Interessante é também a história da palavra "Estilo". Como se sabe, os Romanos escreviam com o «stilus» sobre o papiro ou pequenas tábuas de madeira revestidas de cera. Isto significa que o «stilus» era um instrumento, de ferro ou bronze, com uma extremidade pontiaguda (para escrever) e outra achatada (para raspar as incorrecções), com o qual se escrevia. Mais tarde, o sentido propagou-se para o trabalho feito com esse instrumento, ou seja, a escrita, a composição. E daqui expandiu-se para designar a maneira de escrever de cada um, o estilo (na acepção corrente).