APONTAMENTOS SOBRE A HISTÓRIA DA EVOLUÇÃO DA LÍNGUA


Guilherme Ribeiro


FORMAS DIVERGENTES E FORMAS CONVERGENTES


      A. FORMAS DIVERGENTES . __ Se duas ou mais palavras diferentes provêm do mesmo étimo latino, denominam-se formas divergentes (ou alótropos).

      Vejamos, por exemplo, as palavras:

         LATIM          Via Erudita          Via Popular
     macula      mácula      mancha
     atriu      átrio      adro
     solitariu      solitário      solteiro
     legale      legal      leal
     plaga      plaga      praga; chaga; praia
     plumbu      chumbo/plúmbeo      prumo

      CAUSAS DAS FORMAS DIVERGENTES

      1. CORRENTE POPULAR

      As palavras, ao serem pronunciadas pelo povo, acabaram, segundo as épocas, por dar origem a formas diversas. Vejamos alguns exemplos:

                  plumbu deu origem a chumbo e a prumo;

                  articulu originou artigo e artelho;

                  corona gerou coroa e coronha.

      2. CORRENTE ERUDITA

      A chegada do Renascimento e a consequente tentativa de aproximação da Língua Portuguesa à lígua mãe, o Latim, implicou a introdução de vários vocábulos mais próximos do seu étimo originário. Em "Os Lusíadas" encontramos uma grande quantidade de termos eruditos como: tuba (trombeta), ara (altar), flama (chama), hórrido (horrível), gesto (aspecto, rosto), etc.. Termos como estes passaram a coabitar com as outras formas já modificadas pela fonética popular. Assim, por exemplo, temos:

      etimologia       via erudita       via popular
       duplu        duplo        dobro
       plenu        pleno        cheio
       solitariu        solitário        solteiro
       arena        arena        areia
       atriu        átrio        adro
       clamare        clamar        chamar
       materia        matéria        madeira
       parabola        parábola        palavra

      PALAVRAS SEMI-ERUDITAS. __ Há também outros vocábulos que, tendo ingressado na língua por via erudita, acabaram por ser alterados ao passarem para o domínio da linguagem corrente, como aconteceu, por exemplo, com:

                 humanitate > humanidade

                 macula > mágoa

                  etc.

      3. CORRENTE ESTRANGEIRA

      Por outro lado, o natural intercâmbio entre outros povos e outras línguas motivaram igualmente o enriquecimento do nosso idioma, através da importação de novos vocábulos.

      B. FORMAS CONVERGENTES

      Contrariamente ao que sucedeu com as formas divergentes, as formas convergentes correspondem a homónimos do nosso que procedem de étimos diferentes:

      __ são: enquanto adjectivo, provem de sanu e de sanctu; e como forma verbal, deriva de sunt;

      __ vão: como adjectivo, tem por étimo vanu; como forma do verbo vir, provem de vadunt;

      __ fio: como nome, deriva de filo; como verbo, de fido;

      __ rio: como nome, tem origem em rivu; como verbo, em rideo;

      __ como: como conjunção ou advérbio, deriva de quomodo; como verbo, de comedo;

      __ etc.

      A fonética é a única causa que concorre para a formação das palavras convergentes.

      C. AO NÍVEL DA CONFIGURAÇÃO SEMÂNTICA

      Em muitos dos casos a uma diferença de forma, como acontece com as palavras divergentes (via erudita ou via popular), veio a corresponder uma distinção ao nível semântico. A título de exemplo, vamos apresentar alguns casos:

         __ "Solitário" e "solteiro", provenientes de «solitariu», em que o primeiro continua a ter o sentido original ("isolado", "que vive só", "solitário"), enquanto o segundo funciona como antónimo de casado;

         __ "Palácio" e "paço" (de palatiu): "Paço" resultante da evolução por via popular (palatiu > paaço >paço) ganhou uma especificidade de conteúdo, como se verifica pelo seu uso __ Paço Episcopal, Paços do Conselho; etc.; por seu lado, Palatium, de onde provém, por via erudita, "Palácio", era, primitivamente, o nome do monte Palatino, em Roma. Como Nero aí construiu uma residência, que viera a tomar o nome do referido monte, o termo acabou por generalizar-se com o sentido de "residência real ou, nobre ou senhorial"

         __ "Calamidade" (do latim calamitatem), inicialmente relacionada com «calamus» (cana de cereal, hástia de trigo ou de outro cereal), por essa via começou a designar qualquer fenómeno físico que originasse prejuízos pela perda das colheitas. Este sentido expandiu-se para o de qualquer espécie de desgraça, infelicidade, desventura, calamidade.

         __ "Ministro" (de ministru), que em latim significava «o que serve, ou que ajuda» ou mesmo «escravo». Todavia, esta humilde palavra veio a designar, na linguagem política, uma função elevada: Ministro da Economia, Ministro da Cultura, etc.

         __ "Senhor", proveniente do étimo é «seniore», comparativo de «senex, senis» (velho), significava inicialmente "mais velho". Como a velhice era encarada como sinónimo de experiência, de saber, ganhou também o sentido de respeitabilidade, de veneração, o qual veio a sobrepor-se ao da idade. Hoje é usado como forma de tratamento, mas marcando uma atitude de respeito face do emissor perante o receptor.

         __ "Salário" (do Latim salariu) correspondia à importância concedida aos soldados para comprarem a sua ração de sal. Posteriormente, por alargamento de sentido, passou a significar soldo, ordenado, salário.

         __ "Aresta" (de arista) significava barba de milho e, mais tarde, espinha de peixe. Esta segunda acepção fez ganhar o sentido de aspereza, agudeza. Depois, e por alargamento de sentido, passou a referir a ideia de uma dificuldade a transpor: "Limar as arestas" é equivalente a "ultrapassar/solucionar as dificuldades, as incompreensões, os obstáculos".

         __ "Gesto" (de gestu) signicava inicialmente maneira de apresentar, porte, atitude, em particular referia-se ao gesto do orador, do actor, à mímica. Em Camões esta palavra aparece, na maior parte das vezes, com o sentido de rosto, semblante, fisionomia:

            «Entrava a fermosíssima Maria

             Polos paternais paços sublimados,

             Lindo o gesto, mas fora de alegria»

         Hoje esta acepção desapareceu e o termo passou a designar movimento, aceno.

         __ "Decente" e "Indecente", que outrora significavam, respectivamente, o que fica bem, o que é conveniente e, em oposição, o que fica mal, o que é incoveniente, inadequado, hoje é usado com o sentido de indecoroso.

         __ "Imbecilidade", que, em sentido etimológico, significava fraqueza, hoje tem o sentido de parvoíce, coisa estúpida.

         __ O adjectivo "Peculiar", enquanto forma latina, encontra-se relacionado com pecúlio, com a fortuna pessoal de cada um. Daqui deriva o sentido de pessoal, de próprio; e, depois, de particular, de característico, de especial.

         Etimologicamente, peculiar estava associado a pecu, isto é, gado, rebanho (de onde deriva o termo pecuária) e igualmente com pecunia. Esta ligação deve-se ao facto de, nos primitivos tempos da vida económica romana, o gado representar uma fonte de riqueza. Por isso, pecunia correspondia à riqueza em gado. Posteriormente passou a referir a riqueza em geral. E só mais tarde é que se especializou com o sentido de moeda de cobre (donde pecuniário).

         __ Interessante é também a história da palavra "Estilo". Como se sabe, os Romanos escreviam com o «stilus» sobre o papiro ou pequenas tábuas de madeira revestidas de cera. Isto significa que o «stilus» era um instrumento, de ferro ou bronze, com uma extremidade pontiaguda (para escrever) e outra achatada (para raspar as incorrecções), com o qual se escrevia. Mais tarde, o sentido propagou-se para o trabalho feito com esse instrumento, ou seja, a escrita, a composição. E daqui expandiu-se para designar a maneira de escrever de cada um, o estilo (na acepção corrente).


INTRODUÇÃO
-- ÍNDICE GERAL -- LÍNGUA LATINA -- FORMAÇÃO DA LÍNGUA PORTUGUESA -- LÍNGUAS ROMÂNICAS -- NOÇÕES ELEMENTARES DE FONÉTICA -- OS METAPLASMOS (FENÓMENOS FONÉTICOS) -- VOCALISMO -- CONSONANTISMO -- FORMAS DIVERGENTES E FORMAS CONVERGENTES -- PERIODIZAÇÃO DA EVOLUÇÃO DA LÍNGUA -- MORFOLOGIA HISTÓRICA -- FORMAÇÃO DO VOCABULÁRIO -- ARCAÍSMOS -- BIBLIOGRAFIA --